Síndrome Alcoólica Fetal

Autor: Sou Enfermagem Em: 26/07/2019

Síndrome Alcoólica Fetal

A OMS divulgou no início de 2014 um Relatório Global sobre Álcool e Saúde, que traz informações sobre o consumo de álcool no mundo e avalia os avanços realizados nas políticas do álcool. 

Este documento destaca a importância de conceder atenção especial na redução dos prejuízos do álcool a terceiros, ou seja, aos que indiretamente sofrem os prejuízos do álcool, dentre os quais o acometimento fetal e de neonatos pelo uso de álcool por gestantes.

O conhecimento acerca dos efeitos do álcool na gestação é considerado recente; acredita-se que os primeiros relatos surgiram em 1968 na França, onde pesquisadores descreveram graves efeitos adversos do álcool em 127 casos de filhos de mães alcoolistas. Após cinco anos, a terminologia “Síndrome Alcoólica Fetal” (SAF) foi proposta por Jones e Smith nos Estados Unidos, quando apresentaram um padrão de malformações em fetos de mães alcoolistas e critérios diagnósticos.

O que é a Síndrome Alcoólica Fetal (SAF)?

A Síndrome Alcoólica Fetal (SAF) representa um verdadeiro desafio para os profissionais da área da saúde. Essa síndrome é, atualmente, um dos mais intrigantes problemas de saúde materno-infantil e uma das principais causas de déficit cognitivo-comportamental em crianças. Além de causa de má formação congênita, a SAF também representa séria questão de ordem socioeconômica e de educação. Essa condição clínica de significante prevalência no Brasil decorre do consumo de bebidas alcoólicas durante a gravidez, provocando severas alterações no desenvolvimento fetal, comprometendo diversos órgãos. As crianças afetadas geralmente nascem com baixo peso e baixa estatura (PIG) e microcefalia. As alterações faciais são caracterizadas por: microftalmia, retrognatismo e ausência do sulco nasolabial, configurando um facies peculiar, como pode ser visto na figura abaixo (LIMA, 2008).

Dados Epidemiológicos: incidência e prevalência

Estudos norte-americanos (STREISSGUTH et al., 2001) destacam alguns dados significativos dessa síndrome. A incidência da SAF corresponde a cerca de 2 a 3 casos por 1000 nascimentos vivos, em geral. Em determinadas comunidades, a incidência chega a 10/1000 nascimentos vivos (1%). No Brasil, a falta de conhecimento, a subestimação e a subnotificação dessa condição clínica torna o cálculo da incidência bastante difícil. É importante ressaltar, entretanto, que o elevado padrão de consumo de bebidas alcoólicas em nosso país, entre jovens, principalmente mulheres, pode fazer com que a prevalência de SAF seja alta.

É sabido que o Brasil figura entre os maiores produtores mundiais de bebidas alcoólicas. De acordo com dados da indústria brasileira, somos o terceiro produtor mundial de cerveja – ultrapassando a Alemanha desde 2012 – com mais de 13 bilhões de litros/ano. Em relação aos destilados, ocupamos o primeiro lugar como maior produtor mundial, com cerca de 1,4 bilhão de litros/ano. Nesse sentido, tem-se observado um significativo aumento do consumo, sobretudo, pela população jovem. Com isso, verificou-se que muitas mulheres grávidas consomem bebidas alcoólicas sem o devido conhecimento da ação tóxica do álcool sobre o feto. Em pesquisas realizadas pelo grupo, constatou-se que 22% das gestantes relataram que consumiram álcool durante a gravidez (LIMA et al., 2008).

Se levarmos em consideração que no Brasil há cerca de 3 milhões de mulheres grávidas (MS/Datasus, 2007), pode-se estimar que nasçam por ano 30 mil crianças com SAF leve, moderada ou grave, ou seja, trata-se de 80 casos por dia.

“Se beber, não engravide; se engravidar, não beba” (LIMA, 2008).

Do ponto de vista cognitivo-comportamental, deve-se destacar o comprometimento do desenvolvimento escolar, levando a retardo no processo de aprendizagem, déficit de atenção e distúrbios do comportamento. Outro aspecto importante refere-se à elevada frequência com que crianças e adolescentes com SAF envolvem-se em situações de conflito com a lei.

Em face da magnitude e da complexidade dessa questão de saúde pública, torna-se necessário o estabelecimento de ações e estratégias que visem a assistência integrada dessas crianças e seus familiares. Por outro lado, é de suma importância o desenvolvimento de programas de prevenção baseados na informação, educação e conscientização voltados não só para os profissionais de saúde, como também para os demais profissionais que lidam direta ou indiretamente com essa questão.

A SAF é um distúrbio comum, que ocorre em taxas semelhantes às da síndrome de Down e de espinha bífida. Quando todas as manifestações de SAF/EAF são consideradas em conjunto, a incidência é provavelmente muito mais alta do que a de outras síndromes comuns. Assim sendo, crianças com SAF/EAF podem ser encontradas em uma diversidade de contextos educacionais, de salas de aula regulares a classes especiais. Uma vez que a agressividade e o comportamento antissocial aumentam na adolescência, SAF/EAF tendem a ser um problema comum em meio a jovens que enfrentam problemas com a lei, e em meio àqueles que recebem diversos tipos de atendimento clínico.

A melhor compreensão das manifestações comportamentais de SAF/EAF pode levar a programas escolares mais adequados, o que pode reduzir o fracasso escolar e as altas taxas de evasão entre indivíduos afetados. É provável que as altas taxas de evasão em algumas comunidades reflitam o insucesso das escolas em relação ao provimento de programas para adolescentes com essas dificuldades. O provimento de tratamento para adolescentes, tanto no sistema judicial para a juventude quanto em sistemas mais tradicionais de atenção à saúde, precisa levar em consideração as necessidades psicossociais dos indivíduos afetados, para que os programas sejam ajustados as suas forças e fraquezas.

A prevenção do consumo de álcool durante a gravidez é a única forma de reduzir a incidência desse distúrbio. À medida que aumenta o conhecimento sobre as manifestações sutis, porém graves, que acompanham até mesmo o consumo social do álcool durante a gravidez, aumentará a pressão no sentido de oferecer programas públicos de educação destinados a reduzir o consumo entre gestantes, visando diversos alvos, inclusive os jovens afetados, para prevenir a SAF/EAF multigeracional.

Mecanismo de ação do álcool sobre o feto

Após o consumo, o álcool entra na circulação em direção ao fígado, onde passa por um processo de oxidação e transforma-se em acetaldeído, substância com alta capacidade de difusão em tecidos e líquidos corporais.

Assim, no corpo da gestante, o álcool atravessa a placenta através do sangue materno, chegando ao líquido amniótico e feto (Fig. 1). Após uma hora os níveis de etanol no líquido amniótico e no sangue fetal são equivalentes aos da gestante. Entretanto, o organismo do feto não encontra-se apto para metabolizar o álcool e assim, a concentração de álcool no seu sangue permanece elevada por mais tempo, sendo que a redução do nível alcoólico ocorre principalmente pelo retorno à circulação materna.

Vale ressaltar que todos os tipos de bebidas alcoólicas são igualmente prejudiciais (incluindo vinhos, cervejas e bebidas mistas) mesmo que consumidas em pequenas quantidades e em qualquer momento do período gestacional.

Prevenção

A SAF é 100% atribuída ao álcool e 100% evitável. Por isso, a única forma de evitá-la é evitar totalmente a ingestão de bebidas alcoólicas durante a gestação, ao tentar engravidar ou após relações sexuais desprotegidas - quando é possível engravidar (pois em muitos casos só tomam conhecimento de gravidez algumas semanas após a fecundação). Além disso, mulheres que estejam grávidas e por algum motivo consumiram álcool devem cessar o uso o quanto antes a fim de minimizar os riscos.

Efeitos do uso de álcool na gestação

Os prejuízos causados pela exposição pré-natal ao álcool estão relacionados a diversas partes do corpo e por diferentes processos em vários locais que ainda estão em desenvolvimento no feto, como por exemplo:

Morte de uma série de tipos celulares, o que pode causar desenvolvimento anormal de diferentes partes do corpo do feto;
O álcool pode interromper o desenvolvimento normal de células responsáveis por diferentes funções do cérebro;
Devido à constrição dos vasos sanguíneos interfere no fluxo sanguíneo da placenta, dificultando o fornecimento de nutrientes e oxigênio para o feto e prejudicando seu desenvolvimento natural;
Subprodutos tóxicos do metabolismo do álcool podem permanecer concentrados no cérebro e contribuir para o desenvolvimento da SAF.
Por esses exemplos, podemos perceber como a exposição pré-natal ao álcool pode causar danos cerebrais permanentes, uma vez que o cérebro está em pleno desenvolvimento durante a gravidez. Exames de ressonância magnética revelam que alguns indivíduos expostos ao álcool no período intrauterino apresentam o tamanho do cérebro reduzido; há também a possibilidade de que algumas partes do cérebro sejam danificadas ou ausentes (gânglios basais, cerebelo, corpo caloso, e outros).

Quadro clínico

As mães devem comunicar seu médico quando ocorrer uso de álcool durante a gestação para favorecer a identificação da síndrome. Mesmo que tardiamente, a definição do quadro é útil para orientação de familiares e cuidadores.

Para a identificação da SAF é necessário a presença de três categorias primárias: 1) alterações faciais; 2) restrição de crescimento pré e/ou pós-natal e; 3) evidências de alterações estruturais e/ou funcionais do SNC associadas à exposição intrauterina ao álcool (como indicado no Quadro 1). Assim, o diagnóstico da SAF só pode ser admitido se houver confirmação do uso de bebida alcoólica na gravidez e presença de características das três categorias primárias citadas.
Tratamento

Não existe cura para a SAF, apenas intervenções propostas para crianças e para a família capazes de minimizar os danos causados.

O diagnóstico precoce da doença é considerado fator protetor já que melhores resultados são obtidos por pacientes que tiveram diagnóstico feito ainda na primeira infância.

O tratamento é de suporte, baseado em intervenções que envolvam diferentes aspectos afetados pela síndrome, de forma associada e concomitantemente com participação de equipe multiprofissional que resulte em plano terapêutico específico para cada indivíduo. Entre elas destacam-se: intervenções educacionais com o intuito de contornar as dificuldades no aprendizado; intervenções parentais visando promover a interação entre os pais e a criança através de apoio psicológico e orientação; intervenções farmacológicas, uma vez que crianças e adolescentes expostas ao álcool precocemente são mais propensas a apresentar alterações de humor, problemas de comportamento, drogadição, entre outros.

Referências

BARR, H. M.; STREISSGUTH, P. Identifying maternal self-reported alcohol use associated with fetal alcohol spectrum disorders. Alcohol Clin. Exp. Res., v. 25, n. 2, 2001.

BRASIL. Ministério da Saúde/Datasus, 2007.

LIMA, J. M. B. Álcool e gravidez. Síndrome Alcoólica Fetal (SAF). Rio de Janeiro: MedBook, 2008.

LIMA, J. M. B.  et al. Síndrome alcoólica fetal: entidade neurológica comum, porém pouco conhecida. Revista Brasileira de Neurologia, v. 42, n. 3, 2006.

STREISSGUTH, P. et al. A 21-year longitudinal analysis of the effects of prenatal alcohol exposure on young adult drinking. Arch. Gen. Psychiatry, v. 60, 2003.


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