A necessidade de capacitar líderes na área da Enfermagem tem sido destacada como um ponto crucial para enfrentar as crescentes complexidades do setor de saúde. Um recente fórum virtual, promovido pelo Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) em colaboração com o International Council of Nurses (ICN) e a Federação Pan-Americana dos Profissionais de Enfermagem (Feppen), abordou justamente os desafios multifacetados que a profissão enfrenta em suas dimensões técnica, ética e política. A iniciativa faz parte do projeto Nursing Now, que visa fomentar o desenvolvimento de competências de liderança entre enfermeiros no Brasil.
A pandemia de Covid-19 expôs a rápida necessidade de adaptação e resiliência dos profissionais de Enfermagem. A gestão de situações de alta criticidade e a coordenação de equipes tornaram-se práticas rotineiras, evidenciando a urgência de formar enfermeiros aptos a liderar em cenários de crise e mudança constante.
O avanço tecnológico e o envelhecimento populacional impõem novas demandas à profissão. Muitos profissionais em atividade iniciaram suas carreiras em um contexto sem a presença de ferramentas digitais ou inteligência artificial, o que exige um processo contínuo de requalificação.
A integração da inteligência artificial nos ambientes hospitalares, por exemplo, demanda que a Enfermagem transcenda o escopo meramente técnico, valorizando o equilíbrio emocional e a dimensão humana do cuidado. Essa transição é fundamental para manter a qualidade da assistência em um mundo cada vez mais digitalizado.
A Interface da Enfermagem com as Políticas Públicas
A participação ativa da Enfermagem na elaboração de políticas públicas é vista como um pilar essencial para aprimorar a assistência à saúde da população e assegurar condições de trabalho dignas. Apesar de representar um contingente superior a três milhões de profissionais no país, a representatividade política da Enfermagem ainda é tímida, com apenas cinco parlamentares na atual legislatura.
Apesar de sua atuação fundamental no cuidado direto ao paciente, os enfermeiros ainda lidam com desafios como sobrecarga de trabalho, infraestrutura inadequada e uma percebida falta de reconhecimento profissional. Esses fatores impactam diretamente a qualidade e a sustentabilidade da prática.
Questões de saúde pública, que vão além do ambiente hospitalar e englobam saneamento básico e ações preventivas, dependem de um arcabouço legal robusto. A aprovação de leis que promovam avanços na saúde e em outras áreas sociais é crucial, e a excelência técnica por si só não garante a plena valorização da profissão.
A desvalorização da Enfermagem também encontra raízes em um modelo de saúde predominantemente médico-centrado, comum em muitas nações latino-americanas. Essa estrutura tende a concentrar decisões, dificultando a colaboração multidisciplinar e gerando disparidades no reconhecimento e na autonomia de outros profissionais da saúde.
Como resultado, a discrepância salarial entre médicos e demais profissionais de saúde leva muitos enfermeiros a acumularem múltiplos empregos, intensificando a fadiga, as longas jornadas e os impactos negativos na saúde mental.
Harmonização Legislativa e Reconhecimento Global
A legislação que rege a prática da Enfermagem apresenta consideráveis variações entre os países, criando um cenário de desuniformidade e potenciais desigualdades. A ausência de leis específicas de exercício profissional em algumas jurisdições, como nos Estados Unidos, resulta em condições de trabalho heterogêneas e instáveis.
Essa falta de padronização pode gerar disparidades significativas em termos de práticas, remuneração e direitos dos profissionais, dependendo da região onde atuam. A busca por um marco regulatório mais coeso é, portanto, uma necessidade emergente.
Uma proposta em discussão envolve a reformulação da terminologia utilizada na Enfermagem, com o objetivo de criar nomenclaturas mais precisas e internacionalmente reconhecidas. Essa atualização legislativa é vista como essencial para incorporar os avanços e as novas responsabilidades da profissão.
A pressão coordenada sobre os governos para a criação de normas globais que garantam proteção, governança e valorização dos profissionais de Enfermagem é um caminho estratégico. Essa articulação internacional visa estabelecer um piso de direitos e reconhecimento para a categoria, independentemente de fronteiras.





