A Enfermagem brasileira se prepara para um período de intensa mobilização e reflexão com a Semana da Enfermagem 2026, agendada para ocorrer entre 12 e 20 de maio. Sob o lema “Técnica, ética e política: pilares inegociáveis do cuidado da Enfermagem”, a iniciativa deste ano busca sublinhar o papel central e multifacetado desta categoria, que representa a maior força de trabalho no setor da saúde do país.
O evento visa não apenas celebrar a Enfermagem, mas também expandir a compreensão sobre suas contribuições, que transcendem a assistência direta em saúde, seja no âmbito público ou privado. Profissionais desta área desempenham funções cruciais em pesquisas clínicas e acadêmicas, na gestão de serviços de saúde e na formulação de políticas públicas voltadas à melhoria contínua da qualidade do cuidado dispensado à população.
Com um contingente estimado em quase 3 milhões de profissionais – englobando enfermeiros, técnicos, auxiliares e obstetrizes – a Enfermagem constitui a verdadeira espinha dorsal do sistema de saúde brasileiro. Sua atuação é fundamental para a promoção da saúde, a garantia da dignidade no cuidado e a operacionalidade do sistema de saúde em sua totalidade.
Ao longo do mês de maio, o Sistema Cofen/Conselhos Regionais de Enfermagem planeja uma programação diversificada, com atividades técnico-científicas, palestras, debates e ações institucionais. O objetivo é o fortalecimento da atuação profissional e a qualificação do cuidado oferecido à população.
A Semana da Enfermagem comemora duas datas de grande relevância: 12 de maio, Dia Internacional do Enfermeiro, em homenagem a Florence Nightingale, pioneira da Enfermagem moderna, e 20 de maio, Dia Nacional do Técnico e Auxiliar de Enfermagem, que reverencia a memória de Anna Nery, uma figura emblemática no Brasil.
Um Olhar Abrangente sobre a Força de Trabalho da Enfermagem
Os números revelam a dimensão da Enfermagem no Brasil. São quase 3 milhões de profissionais em atuação, com a predominância de técnicos, representando 63,58% do total. Enfermeiros somam 27,57%, e auxiliares, 8,84%. Esta vasta força de trabalho sustenta o funcionamento de hospitais, unidades básicas de saúde, serviços de urgência e emergência, atenção domiciliar, saúde mental, programas de vacinação, vigilância sanitária e cuidados de longa duração, segundo dados do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen).
A pesquisa “Demografia e Mercado de Trabalho em Enfermagem no Brasil”, lançada em 2025 pelo Ministério da Saúde, reforça o protagonismo da categoria, que compõe 70% dos profissionais de saúde do país. O estudo aponta para a necessidade de investimentos públicos e privados e a implementação de políticas de fortalecimento da força de trabalho.
Entre 2017 e 2022, o Brasil testemunhou um aumento expressivo de quase 44% nos postos de trabalho na Enfermagem, elevando o número de vínculos de 1 milhão para 1,5 milhão. Este crescimento abrangeu todos os níveis de atenção à saúde.
A profissão é marcadamente feminina, com cerca de 2,6 milhões de mulheres (87,20%) no quadro profissional. Os vínculos de trabalho na Enfermagem se concentram majoritariamente no setor público, com 61,9% dos profissionais atuando no Sistema Único de Saúde (SUS).
Os estados da região Sudeste, especialmente São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, concentram os maiores contingentes de profissionais. Bahia e Rio Grande do Sul também se destacam nas regiões Nordeste e Sul, respectivamente.
O papel estratégico da Enfermagem se estende a todas as esferas da saúde. Sua presença é sentida em 100% dos municípios brasileiros, atuando desde unidades de terapia intensiva neonatais até cuidados paliativos, passando pela Estratégia de Saúde da Família (ESF), centros cirúrgicos de alta complexidade, programas de vacinação e atendimentos hospitalares.
Com o aprimoramento de suas competências técnicas, autonomia ética e política, os enfermeiros têm ocupado posições cada vez mais relevantes para além da assistência direta. Auditoria, cuidados domiciliares, ensino, pesquisa, consultoria e empreendedorismo são algumas das áreas em que sua atuação se consolida.
A Resolução 581/2018 do Cofen detalha mais de 60 especialidades para o profissional enfermeiro, agrupadas em três grandes eixos: Saúde Coletiva; Saúde da Criança e do Adolescente; Saúde do Adulto (Saúde do Homem e Saúde da Mulher; Saúde do Idoso; Urgências e Emergências); Gestão; e Ensino e Pesquisa. Essa diversidade de especializações reforça a Enfermagem como um pilar central no sistema de saúde.
A representatividade da Enfermagem na política brasileira tem crescido significativamente. Nas eleições municipais de 2024, a categoria elegeu 47 prefeitos, 91 vice-prefeitos e 1.091 vereadores em todo o país. Houve um aumento de 6,8% no número de prefeitos eleitos em comparação com 2020, além de um crescimento de 15% em vice-prefeituras e 2% em vereadores.
Para Manoel Neri, presidente do Cofen, a ampliação da presença da Enfermagem em espaços de decisão é fundamental para aprimorar a gestão do sistema de saúde e assegurar respostas mais eficazes aos desafios sanitários nacionais.
Valorização Profissional e Desafios Atuais
A Semana da Enfermagem também serve como plataforma para a discussão da agenda de valorização da categoria. Uma conquista recente de grande impacto foi a aprovação do Piso Salarial Nacional da Enfermagem (Lei 14.434/2022), que estabeleceu valores mínimos para enfermeiros, técnicos, auxiliares e parteiras.
Atualmente, a categoria mobiliza-se pela aprovação da PEC 19/2024 no Congresso Nacional. A proposta visa vincular o cálculo do piso a uma jornada de 36 horas semanais e garantir reajustes anuais de acordo com a inflação, buscando assegurar melhores condições de trabalho e remuneração.
Outra pauta prioritária do Sistema Cofen/Conselhos Regionais de Enfermagem é a regulamentação da jornada de trabalho de 30 horas semanais para enfermeiros, técnicos, auxiliares e parteiras. A medida visa não apenas proteger o profissional, mas também garantir a qualidade do cuidado prestado aos pacientes.
Paralelamente, tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 1.329/2025, que propõe uma avaliação nacional obrigatória para enfermeiros, técnicos e auxiliares como requisito para o registro profissional. O objetivo é assegurar a qualificação dos profissionais e a segurança sanitária da população, especialmente diante do aumento da oferta de cursos na modalidade de Educação a Distância (EaD) sem a devida supervisão prática.
O Cofen expressa preocupação com a formação em EaD desvinculada de estágios práticos supervisionados, argumentando que isso pode comprometer o desenvolvimento de habilidades essenciais para uma assistência segura e representar um risco à saúde pública.





