A persistente alta taxa de mortalidade materna no Brasil, com 1.192 óbitos registrados em 2025 diretamente associados à gravidez e ao parto, evidencia profundas desigualdades no acesso à saúde. Dados preliminares indicam subnotificação significativa, com uma parcela substancial dos óbitos de mulheres em idade fértil sem causa definida. Grupos vulneráveis, como mulheres de baixa renda, adolescentes, negras e residentes em áreas rurais, enfrentam riscos desproporcionalmente maiores.
Essa realidade impulsiona o debate em torno da necessidade de uma Reforma Obstétrica, um movimento que busca reestruturar a assistência e a formação profissional, colocando a mulher no centro do cuidado. A adoção de práticas baseadas em evidências científicas é um dos pilares dessa reforma, visando mitigar complicações inerentes ao processo gestacional e ao parto.
Avanços na saúde materna dependem da atuação integrada em todos os níveis do sistema, desde a Atenção Primária. A prevenção de riscos, a identificação precoce de sinais de alerta e a garantia de acesso a intervenções comprovadamente eficazes, como a suplementação de cálcio durante a gestação, são fundamentais para reduzir mortalidades evitáveis.
Essas intervenções, quando implementadas de forma rotineira e acessível a todas as gestantes pelo Sistema Único de Saúde (SUS), representam um passo crucial na redução de síndromes hipertensivas. A atuação proativa dos profissionais de saúde, orientada por diretrizes claras e conhecimento atualizado, é indispensável para a proteção da vida materna.
Avanços na informação e no cuidado
A recente introdução da nova Caderneta Brasileira da Gestante marca um avanço significativo nas estratégias de cuidado à mulher. Este instrumento, projetado para ser um guia dinâmico e interativo, reflete os princípios da Reforma Obstétrica, valorizando o pré-natal qualificado, o planejamento do parto e a atenção integral no puerpério.
A caderneta busca empoderar as gestantes com informações relevantes sobre seus direitos e os cuidados necessários em cada etapa da gestação. A sua eficácia, no entanto, reside na sua correta utilização pelas equipes de saúde e pelas próprias mulheres, transformando-a em uma ferramenta viva de acompanhamento e educação.
O suporte de diversas entidades representativas da área da saúde e de movimentos sociais reforça a importância desta iniciativa. A disseminação da nova caderneta através de plataformas digitais, como o aplicativo Meu SUS Digital, amplia seu alcance e acessibilidade, promovendo uma cultura de cuidado mais humanizada e informada.
Desafios para a consolidação de um novo modelo
A plena implementação da Reforma Obstétrica e a efetiva utilização de instrumentos como a nova Caderneta Brasileira da Gestante enfrentam obstáculos que vão além da criação de documentos e protocolos. A necessidade de uma formação profissional contínua, voltada para as mais recentes evidências científicas e para a promoção de um atendimento centrado na autonomia da mulher, é um dos desafios mais prementes.
A garantia de que a informação qualificada chegue a todas as gestantes, independentemente de sua localização geográfica ou condição socioeconômica, requer investimentos em infraestrutura e em políticas públicas que combatam as barreiras de acesso. É preciso assegurar que o cuidado obstétrico oferecido seja equânime e de alta qualidade em todo o território nacional.
O futuro da saúde materna
A busca pela redução da mortalidade materna é um compromisso contínuo que exige a articulação de esforços entre gestores, profissionais de saúde e a sociedade civil. A Reforma Obstétrica, ao propor uma mudança paradigmática na assistência ao parto e nascimento, oferece um caminho promissor para construir um futuro onde cada gravidez seja vivida com segurança e dignidade.
A aposta em um modelo de cuidado que valoriza a experiência da mulher, respeita suas escolhas e promove o protagonismo em todas as fases do processo reprodutivo é essencial. A consolidação de políticas públicas robustas e a garantia de recursos adequados são fundamentais para transformar essa visão em realidade e assegurar que nenhuma mulher perca a vida ao dar à luz.





