Guarujá (SP), agosto de 2025 – O prefeito de Guarujá, Farid Said Madi (Podemos), gerou nova onda de polêmica nas redes sociais e entre autoridades sanitárias após aparecer, em 15 de janeiro, em um vídeo bebendo um copo de água do mar na Praia das Pitangueiras. A ação, que teve como objetivo contestar o impacto do recente surto de virose que atingiu mais de 11 mil pessoas no litoral paulista, dividiu opiniões e reacendeu o debate sobre segurança sanitária e comunicação pública em tempos de crise.
A tentativa de transmitir confiança
No vídeo, publicado no perfil oficial do prefeito nas redes sociais, Madi afirma que as praias de Guarujá “estão limpas” e que a cidade está pronta para receber turistas com segurança. “Estamos aqui na Praia das Pitangueiras. As pessoas estão tomando banho normalmente. A praia está limpa, linda. E para provar isso, eu bebo a água do mar sem medo”, declarou, logo antes de ingerir o líquido, em um gesto que ele definiu como “simbólico e de confiança”.
A publicação, no entanto, não teve o efeito desejado. Rapidamente, internautas, especialistas em saúde pública e entidades ambientais reagiram com críticas, alertando para os riscos de ingerir água salgada mesmo em praias classificadas como próprias para banho.
CETESB confirma qualidade apenas parcial
A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) atualizou seu boletim de balneabilidade semanal e confirmou que a Praia das Pitangueiras está, de fato, própria para banho. No entanto, o relatório também destaca que outras praias da cidade, como Perequê, Tombo e parte da Enseada, seguem impróprias devido a altos índices de coliformes fecais e matéria orgânica.
Segundo o último laudo da companhia, divulgado no dia 31 de julho, dos 16 pontos de monitoramento em Guarujá, apenas 9 foram classificados como próprios, o que representa um alerta importante para a população e turistas.
Especialistas apontam imprudência
A atitude do prefeito foi considerada “irresponsável” por parte da comunidade científica. Segundo o infectologista Dr. Luiz Azevedo, da Unicamp, “não se trata apenas da balneabilidade para banho recreativo. Beber água do mar, ainda que limpa, pode trazer sérios riscos à saúde, como ingestão de bactérias marinhas, parasitas e até microplásticos”.
Entidades de saúde pública também se posicionaram. A Associação Paulista de Medicina (APM) divulgou nota técnica afirmando que “ações midiáticas não substituem políticas públicas baseadas em evidência científica” e recomendou que os gestores priorizem o investimento em saneamento, coleta de esgoto e educação sanitária.
População dividida
Entre os moradores e comerciantes da orla, o gesto do prefeito foi visto com ambiguidade. Alguns o consideraram corajoso e necessário para atrair novamente os turistas à cidade, que teve sua imagem abalada pelo surto de virose ocorrido entre o final de junho e o início de julho. Outros, no entanto, consideraram a ação um “teatro” e cobraram medidas reais, como a intensificação na fiscalização de ambulantes e quiosques e melhorias no sistema de esgotamento sanitário.
A moradora Sandra Ribeiro, de 49 anos, foi categórica: “Beber água do mar não resolve nada. Queremos mais fiscalização e menos marketing. O surto deixou muita gente doente. É preciso transparência.”
Contexto do surto
O surto de virose gastrointestinal, que atingiu cidades como Guarujá, Praia Grande, Santos e Bertioga, causou sintomas como febre, vômito, diarreia e dores abdominais em milhares de pessoas. O Instituto Adolfo Lutz, responsável pelas análises laboratoriais, confirmou a presença de norovírus em amostras de fezes coletadas de pacientes, indicando uma provável contaminação fecal disseminada no ambiente — possivelmente por alimentos contaminados, água ou contato interpessoal.
O governo do estado, em conjunto com prefeituras da Baixada Santista, prometeu reforçar a vigilância sanitária nas praias e quiosques, além de ampliar a cobertura de saneamento básico nas áreas críticas.
Próximos passos e medidas preventivas
A Prefeitura de Guarujá informou, em nota, que vem intensificando a fiscalização nas praias e estabelecimentos comerciais, além de manter ações de educação sanitária em parceria com a Vigilância Epidemiológica e a Defesa Civil. Madi, por sua vez, reforçou que sua intenção foi “apenas demonstrar que a cidade segue segura e comprometida com o turismo”.
Enquanto isso, as autoridades estaduais continuam o monitoramento das praias e dos indicadores de saúde, com nova rodada de boletins sanitários prevista para a próxima semana. Ver Prefeito de Guarujá bebe água do mar para provar limpeza das praias em meio a surto de virose.





