Acidentes de moto lotam hospitais e empurram cirurgias complexas para o fim da fila no SUS

Acidentes de moto lotam hospitais e empurram cirurgias complexas para o fim da fila no SUS

Quem depende de cirurgia ortopédica de alta complexidade no Sistema Único de Saúde está enfrentando uma espera ainda maior. O motivo? O aumento assustador de acidentes com motociclistas, que têm lotado os centros de referência, como o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), no Rio de Janeiro. Lá, procedimentos que já eram demorados para serem agendados agora estão sendo empurrados para frente, porque o espaço e os recursos precisam ser liberados para atender vítimas de colisões, atropelamentos e quedas envolvendo motos.

É uma verdadeira corrida contra o tempo: cada emergência que chega significa que vários pacientes agendados ficam para depois. Enquanto isso, famílias inteiras aguardam ansiosamente pela chance de ver seus parentes operados e livres de dores ou limitações.

O tamanho do problema

Em 2024, só no Into, 1.450 cirurgias eletivas deixaram de ser feitas por causa das transferências de emergência. Um em cada cinco pacientes que chegava nessas condições era motociclista com lesão grave.

Segundo a direção do instituto, cada cirurgia de trauma por acidente de moto ocupa tanto tempo e recursos que, na prática, cinco pessoas da fila regular deixam de ser operadas. E não estamos falando de qualquer operação — são procedimentos caros, complexos e muitas vezes decisivos para a qualidade de vida do paciente.

Dados que assustam

Entre 2010 e 2023, mais de 1,4 milhão de motociclistas precisaram ser internados após acidentes, o que representa mais da metade (57,2%) de todas as hospitalizações por lesões no trânsito no Brasil. Isso custou aos cofres públicos mais de R$ 2 bilhões.

E a tendência não é animadora: boa parte dessas vítimas é formada por entregadores de aplicativo, que vivem sob pressão de tempo e enfrentam riscos diários no trânsito.

Emergências quebrando recordes

Neste ano, o Into já caminha para bater recorde no número de atendimentos de vítimas do trânsito. Só no primeiro semestre, a média foi de cinco pacientes graves transferidos por semana para cirurgias de alta complexidade.

Essas operações de urgência custam mais caro e exigem internações mais longas. Enquanto um paciente de cirurgia eletiva fica pouco tempo no hospital, uma vítima de acidente de moto pode ocupar um leito por até 25 dias — sem contar os anos de reabilitação que podem vir depois.

História que poderia ter acabado pior

O caso de Eduardo Barbosa, de 39 anos, mostra como o problema vai além dos números. Em 2022, ele e o companheiro colidiram com uma carreta na descida da Serra da Mantiqueira. Eduardo estava de capacete e jaqueta, mas o impacto quase lhe tirou o movimento dos quatro membros e por pouco não resultou na amputação do braço esquerdo.

Depois de 44 dias internado e várias cirurgias, ele foi transferido para o Into, onde especialistas conseguiram salvar o braço. Hoje, vive em reabilitação intensa, com mais operações no horizonte, e sabe que talvez o tratamento dure para o resto da vida.

A longa estrada da reabilitação

Muitos pacientes como Eduardo passam anos reaprendendo a realizar tarefas simples, como varrer a casa ou cortar alimentos.

Segundo a terapeuta ocupacional Martha Menezes Lucas, cerca de 90% de seus pacientes são motociclistas, e grande parte deles não tem direito a benefícios da Previdência, porque trabalhavam na informalidade. O resultado é devastador: perda da renda, dependência de familiares e uma vida social cada vez mais restrita.

Quando a fila não anda

A soma de emergências de trânsito com a demanda natural de idosos e pacientes com doenças crônicas cria um gargalo difícil de resolver. Como resume a diretora-geral do Into, Germana Lyra Bähr, o problema não é só dinheiro: “Não tem gente suficiente para dar conta de tudo”. Enquanto isso, cada acidente de moto não afeta apenas a vítima — ele empurra para mais longe o sonho de milhares de brasileiros de voltar a ter uma vida normal. Ver Cirurgia Ortopédica.

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