Uma publicação feita nas redes sociais por uma dentista brasileira gerou grande repercussão ao relatar um caso que, segundo ela, expõe um risco grave: o de pacientes serem submetidos a procedimentos odontológicos sem planejamento adequado e com materiais incompatíveis com a implantodontia. No relato, a profissional Cristina Garini descreveu o atendimento de um paciente que chegou ao consultório acreditando ter realizado um implante dentário, mas que, durante a avaliação, apresentou um achado surpreendente.
De acordo com a dentista, o material encontrado não correspondia a um implante odontológico. “Isso não era um implante. Era um parafuso”, escreveu a profissional ao comentar a situação. A partir da análise clínica e da documentação do caso, o episódio acendeu um alerta sobre práticas irregulares e sobre como a busca por soluções “rápidas” pode levar a consequências sérias para a saúde bucal — e, em alguns cenários, para a saúde geral do paciente.
Um alerta sobre procedimentos irregulares
O caso, como descrito, levanta preocupação não apenas pelo impacto imediato na boca do paciente, mas pelo que ele representa: a possibilidade de existirem intervenções realizadas por pessoas sem qualificação, em ambientes inadequados, ou com promessas de resultados imediatos sem o rigor técnico necessário. A implantodontia é uma área altamente especializada e envolve etapas obrigatórias de diagnóstico, planejamento e controle de risco.
Implantes dentários não são peças “genéricas”. Eles são dispositivos médicos fabricados com materiais biocompatíveis e passam por processos de certificação, rastreabilidade e padronização. Além disso, exigem conhecimento aprofundado de anatomia, oclusão, densidade óssea, cicatrização, controle de infecção e condução de pós-operatório.
Por que “improvisar” coloca o paciente em risco
Especialistas costumam reforçar que o grande perigo de um procedimento mal executado ou com material inadequado não está apenas no resultado estético ruim. A principal preocupação envolve complicações como:
- Inflamação persistente e dor crônica.
- Infecção local com risco de progressão para estruturas vizinhas.
- Perda óssea acelerada (reabsorção), dificultando reabilitações futuras.
- Lesão de nervos, com alteração de sensibilidade.
- Comprometimento funcional, com dificuldade de mastigação e fala.
- Necessidade de novas cirurgias para remoção e reconstrução.
Além disso, quando há uso de materiais não odontológicos — como o relato sugere — aumenta-se o risco de reação tecidual, falha mecânica e contaminação, porque o material pode não ter sido desenvolvido para permanecer no organismo.
O que um implante dentário exige na prática
A ideia de “colocar um implante” como se fosse uma etapa única é um dos pontos que mais confundem o público. Em linhas gerais, um tratamento de implantes envolve:
- Avaliação clínica completa, incluindo histórico médico e odontológico.
- Exames de imagem (radiografias e, em muitos casos, tomografia).
- Planejamento individualizado, considerando osso disponível e o tipo de prótese.
- Seleção de sistema de implantes com procedência e registro.
- Técnica cirúrgica adequada e protocolos de biossegurança.
- Acompanhamento pós-operatório e controle de cicatrização.
- Etapas protéticas com ajuste oclusal e manutenção.
É justamente por ser um processo criterioso que implantes não devem ser vendidos como “solução imediata” ou “promoção relâmpago”. Em saúde, pressa e improviso geralmente custam caro.
Como o paciente pode se proteger
O episódio reforça a importância do paciente adotar uma postura ativa antes de qualquer procedimento invasivo. Algumas medidas simples ajudam a reduzir o risco de cair em práticas irregulares:
- Confirmar se o profissional é habilitado e possui registro regular.
- Desconfiar de promessas rápidas demais, sem exames e planejamento.
- Pedir explicação clara sobre qual material será utilizado e por quê.
- Solicitar orçamento detalhado e plano de tratamento por escrito.
- Perguntar sobre a marca/sistema de implantes e sobre a rastreabilidade.
- Manter cópias de exames e documentação do procedimento.
- Buscar segunda opinião quando algo parecer “bom demais para ser verdade”.
Repercussão e responsabilidade
Casos desse tipo, quando chegam ao público, costumam gerar indignação e medo — o que é compreensível. Porém, especialistas também alertam para a importância de tratar o tema com responsabilidade: cada caso precisa ser apurado, documentado e analisado tecnicamente para que haja encaminhamento adequado, tanto do ponto de vista assistencial quanto do ponto de vista ético e legal.
Ainda assim, o relato cumpre um papel fundamental: lembrar que a odontologia é uma área de saúde séria, baseada em ciência, técnica e segurança. Quando essas bases são ignoradas, quem paga o preço é o paciente — com dor, gastos maiores e risco de sequelas.




