Um estudo brasileiro divulgado em dezembro pela revista científica Blood aponta que o transplante de medula óssea pode apresentar bons resultados mesmo quando realizado com doadores apenas parcialmente compatíveis. A pesquisa indica que, em determinados casos, familiares que não possuem compatibilidade total oferecem níveis de segurança e eficácia semelhantes aos de doadores plenamente compatíveis.
O transplante de medula óssea é um dos principais tratamentos para doenças hematológicas graves, como leucemia mieloide aguda e leucemia linfoblástica aguda, e depende da compatibilidade entre doador e receptor para reduzir riscos e aumentar as chances de sucesso.
Comparação entre doadores aparentados e não aparentados
O levantamento comparou dois grupos de pacientes adultos: aqueles que receberam medula de doadores totalmente compatíveis não aparentados e pacientes submetidos a transplantes com doadores familiares parcialmente compatíveis, conhecidos como transplantes haploidênticos.
De acordo com os pesquisadores, ambos os perfis demonstraram desempenho clínico semelhante, reforçando a possibilidade de ampliar o acesso ao procedimento, especialmente para pacientes que não encontram doadores ideais nos registros nacionais e internacionais.
Como o estudo foi conduzido
A pesquisa foi liderada pelo Hospital Israelita Albert Einstein, em parceria com a Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea. Ao todo, foram analisados dados de 501 pacientes, atendidos em 21 hospitais brasileiros, entre os anos de 2018 e 2021.
Do total de participantes, 335 pacientes receberam transplante com doadores parcialmente compatíveis, enquanto 166 foram submetidos ao procedimento com doadores totalmente compatíveis não aparentados. Todos tinham 18 anos ou mais e estavam em remissão completa da doença no momento do transplante.
Resultados indicam eficácia semelhante
Após um período médio de acompanhamento de 26 meses, os pesquisadores não identificaram diferenças clinicamente relevantes entre os dois grupos. As taxas de sobrevida global, retorno da doença e toxicidade do tratamento apresentaram resultados próximos.
Em dois anos, a sobrevida global foi de 61% entre os pacientes que receberam transplantes haploidênticos, contra 66% no grupo de doadores totalmente compatíveis. Já a sobrevida livre de recidiva do câncer foi de 57% e 62%, respectivamente.
Retorno da doença não dependeu do tipo de doador
A incidência de retorno da doença em até dois anos foi de 20% no grupo de transplantes parcialmente compatíveis e de 14% no grupo de compatibilidade total. Após ajustes estatísticos, os pesquisadores concluíram que o tipo de doador não foi um fator independente para o risco de recidiva.
Os dados reforçam evidências científicas já existentes de que o uso de doadores familiares parcialmente compatíveis pode ser uma alternativa segura e eficaz, sobretudo em situações em que não há doadores totalmente compatíveis disponíveis.
Protocolos Clínicos e o Papel da Ciclofosfamida
O grande salto tecnológico que tornou o transplante haploidêntico seguro foi o uso da ciclofosfamida pós-transplante.
- Como funciona: Esse medicamento é administrado logo após a infusão das células do doador. Ele “elimina” as células de defesa do doador que atacariam o corpo do paciente (causando a temida Doença do Enxerto Contra Hospedeiro – DECH), mas preserva as células-tronco que vão reconstruir a imunidade.
- Impacto Hospitalar: Ter protocolos rígidos para a administração e monitoramento dessa droga é o que diferencia o sucesso do procedimento.
Democratização do Acesso (Políticas Públicas)
A inclusão do transplante haploidêntico nos protocolos do SUS (Sistema Único de Saúde) ou em operadoras de saúde é estratégica por três motivos:
- Velocidade: Buscar um doador em bancos internacionais (como o REDOME) pode levar meses. No haploidêntico, o doador está na família e o transplante pode ocorrer em semanas.
- Inclusividade Étnica: Populações com grande miscigenação (como a brasileira) têm mais dificuldade de encontrar doadores 100% compatíveis em bancos de dados. O transplante haploidêntico garante que quase 95% dos pacientes tenham um doador disponível dentro de casa.
- Redução de Custos de Logística: Evita os altos custos de importação de medula óssea do exterior.
Estrutura Hospitalar Necessária
Para que um hospital considere essa opção como viável, o estudo aponta que não basta a técnica médica, é preciso:
- Equipe Multidisciplinar: Treinamento específico para manejar complicações infecciosas, que são ligeiramente mais comuns no período inicial pós-haplo.
- Laboratório de Histocompatibilidade (HLA): Agilidade nos testes de tipagem familiar para identificar rapidamente qual parente é o melhor doador.
Impacto para o acesso ao tratamento
Segundo os autores, os resultados ampliam as possibilidades terapêuticas para pacientes com doenças hematológicas graves, reduzindo o tempo de espera por um transplante e aumentando as chances de acesso ao procedimento em tempo adequado.
O fortalecimento das políticas públicas e dos protocolos hospitalares para o transplante haploidêntico (ou transplante com doador aparentado 50% compatível) representa uma revolução no acesso ao tratamento de doenças hematológicas, como a leucemia.
Historicamente, o maior desafio do transplante de medula óssea era encontrar o “doador perfeito” (100% compatível). O transplante haploidêntico quebra essa barreira ao permitir que pais, filhos ou irmãos sejam doadores, mesmo com metade da compatibilidade.
Com o amadurecimento das técnicas de imunossupressão, o transplante haploidêntico deixou de ser um “plano B” para se tornar, em muitos casos, a primeira opção devido à rapidez e disponibilidade.
Fortalecer políticas públicas nesse sentido significa reduzir a fila de espera e aumentar a sobrevida global dos pacientes.





