Conselho Federal de Medicina proíbe tratamentos hormonais para menores de 18 anos

Conselho Federal de Medicina proíbe tratamentos hormonais para menores de 18 anos

Em uma medida que tem gerado intensos debates entre especialistas da saúde, representantes do movimento LGBTQIA+ e autoridades jurídicas, o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou nesta quarta-feira (16) uma nova resolução que altera profundamente os critérios para o atendimento de pessoas com incongruência ou disforia de gênero no Brasil. A norma estabelece a proibição de terapias hormonais para menores de 18 anos e eleva a idade mínima para a realização de cirurgias de transição para 21 anos, caso estas resultem em efeitos esterilizantes.

A decisão, considerada por muitos um retrocesso nas políticas de acolhimento a pessoas trans, motivou a abertura de uma investigação por parte do Ministério Público Federal (MPF), além de reações contundentes de entidades civis que lutam pela diversidade de gênero.

Mudanças promovidas pelo CFM e os principais pontos da resolução

A resolução publicada no Diário Oficial da União traz um novo posicionamento do CFM em relação aos tratamentos destinados à população trans. Entre as principais mudanças, destaca-se a proibição do uso de bloqueadores hormonais da puberdade em crianças e adolescentes, medida anteriormente considerada fundamental para impedir o desenvolvimento de características físicas indesejadas por jovens trans.

Além disso, a terapia hormonal cruzada — que consiste na administração de hormônios sexuais que induzem características secundárias compatíveis com a identidade de gênero do paciente — está agora restrita a indivíduos com 18 anos ou mais. A nova norma também determina que as cirurgias de redesignação de gênero que possam acarretar esterilidade só poderão ser realizadas a partir dos 21 anos.

Justificativas apresentadas pelo Conselho Federal de Medicina

De acordo com o relator da resolução, Raphael Câmara, a decisão foi embasada em estudos científicos recentes e em mudanças de diretrizes observadas em países como Reino Unido, Suécia, Noruega e Dinamarca, onde as práticas para tratamento de disforia de gênero em menores também foram restringidas. O CFM justifica que a supressão hormonal precoce pode gerar efeitos adversos como baixa densidade óssea, crescimento comprometido e prejuízos à fertilidade.

A instituição também alega que tem havido um aumento nos casos de destransição e arrependimento, o que motivou maior cautela nas indicações.

O conselho reforça que sua medida está alinhada com a Portaria nº 2.803 do Ministério da Saúde, que desde 2013 já prevê os 21 anos como idade mínima para a realização de procedimentos cirúrgicos de transição.

Reações da sociedade civil e abertura de inquérito pelo MPF

A nova resolução foi duramente criticada por organizações da sociedade civil, como a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e o coletivo Mães pela Diversidade. Para essas entidades, a decisão representa uma forma de negligência institucionalizada que poderá aumentar o sofrimento psicológico de jovens trans, além de favorecer práticas médicas clandestinas e inseguras.

O MPF do Acre anunciou a abertura de um procedimento para apurar a legalidade da norma. O procurador regional dos Direitos do Cidadão, Lucas Costa Almeida Dias, solicitou ao CFM que apresente os fundamentos técnicos e jurídicos da medida. O órgão também citou decisões do Supremo Tribunal Federal e diretrizes da Organização Mundial da Saúde que despatologizam a transexualidade como argumento para questionar a nova regulamentação.

O que permanece permitido e exceções à nova norma

A resolução do CFM prevê algumas exceções. O uso de bloqueadores hormonais continua permitido em casos clínicos como puberdade precoce ou outras condições endócrinas, desde que não estejam relacionadas à incongruência de gênero. Pessoas que já estejam em tratamento com bloqueadores ou hormônios não serão afetadas pelas novas regras.

Além disso, o texto reforça que qualquer intervenção deve ser precedida de avaliação médica rigorosa, com acompanhamento psiquiátrico, endocrinológico e avaliações de risco físico e mental. A realização dos procedimentos deve ocorrer apenas em unidades médicas com infraestrutura adequada e equipe especializada.

Cenário anterior e impacto da mudança

Antes da nova resolução, a idade mínima para início da terapia hormonal havia sido flexibilizada para 16 anos, em 2020, o que foi amplamente celebrado por profissionais que atuam com a população trans. Agora, com o recuo do CFM, médicos e ativistas temem que o novo cenário dificulte o acesso a tratamentos que podem ser determinantes para o bem-estar mental e físico de adolescentes trans.

Profissionais da saúde alertam que a medida pode aumentar os casos de sofrimento psíquico e risco de suicídio entre jovens trans, além de comprometer a autonomia médica diante das individualidades dos pacientes.

Os limites da intervenção médica

A decisão do CFM reacende o debate sobre os limites da intervenção médica em temas ligados à identidade de gênero e levanta questionamentos sobre a legitimidade de restringir tratamentos reconhecidos internacionalmente como parte da saúde integral da população trans.

À medida que o tema avança para os tribunais e instâncias legais, espera-se que o embate entre argumentos técnicos, direitos humanos e evidências científicas continue a mobilizar a sociedade brasileira. Veja também Prefeitura de Taubaté demite médico do SUS após flagrantes de ausência durante expediente.

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