A craniectomia é um procedimento cirúrgico em que uma parte do osso do crânio é removida e não recolocada imediatamente, deixando o cérebro temporariamente exposto apenas com proteção de tecidos moles (pele e músculo). Diferente da craniotomia, em que o osso é removido e recolocado no mesmo ato cirúrgico, a craniectomia mantém o defeito ósseo aberto por um período de tempo. Esta cirurgia muitas vezes serve como uma medida de salvamento de emergência. Quando é feito para aliviar o inchaço, é chamado de craniecto.
Esse procedimento é geralmente utilizado como medida salva-vidas, principalmente em situações de aumento grave da pressão intracraniana (PIC) em que outras terapias não são eficazes. A craniectomia descompressiva permite que o cérebro inche para fora do crânio, evitando compressão de estruturas vitais e reduzindo o risco de morte ou herniação cerebral. Ver Emergências Cardiovasculares em APH.
Diferença entre craniectomia e craniotomia
| Procedimento | O que é feito | O osso é recolocado? | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Craniectomia | Remove parte do crânio e NÃO recoloca | NÃO | Descompressão do cérebro |
| Craniotomia | Remove temporariamente e recoloca no final | SIM | Acesso ao cérebro para cirurgia |
Após uma craniectomia, o paciente fica com o defeito ósseo até que seja realizada uma cranioplastia, que reconstrói o crânio posteriormente.
Principais indicações da craniectomia
1. Traumatismo cranioencefálico grave (TCE)
- Edema cerebral massivo
- Hematomas subdurais ou epidurais expansivos
- Fraturas com compressão
2. Acidente vascular cerebral (AVC)
- AVC isquêmico maligno (território da artéria cerebral média)
- AVC hemorrágico com edema
- Edema cerebral refratário
3. Hipertensão intracraniana refratária
- Pressão intracraniana > 20-25 mmHg sem resposta a tratamento clínico
4. Infecções graves
- Abscesso cerebral extenso
- Empiema subdural
5. Tumores cerebrais volumosos ou agressivos
- Glioblastoma com edema severo
6. Malformações ou complicações cirúrgicas prévias
Benefícios da craniectomia
✅ Reduz drasticamente a PIC
✅ Previne herniação cerebral (morte)
✅ Melhora a perfusão cerebral
✅ Aumenta a sobrevida em TCE grave e AVC maligno
✅ Permite drenagem de hematomas extensos
✅ Garante tempo para resolução do edema cerebral
Tipos de craniectomia
1. Craniectomia descompressiva bifrontal
- Retirada de osso frontal bilateral
- Usada em edema difuso (TCE grave)
2. Craniectomia frontotemporoparietal unilateral (hemicraniectomia)
- Retirada de grande área de um lado do crânio (12×15 cm aprox.)
- Indicada em AVC maligno ou edema unilateral
3. Craniectomia suboccipital
- Retirada de osso na região occipital (posterior)
- Indicada em lesão do cerebelo, tumores ou edema da fossa posterior
4. Craniectomia temporal
- Para descompressão do lobo temporal e prevenção de herniação uncal
Como é realizada a craniectomia (passo a passo cirúrgico)
- Avaliação com TC/RM
- Anestesia geral
- Incisão no couro cabeludo
- Remoção do retalho ósseo craniano (sem reposicioná-lo)
- Durotomia (abertura da dura-máter) para ampliar descompressão
- Pode-se colocar enxerto dural (dura artificial)
- Hemostasia e controle de sangramento
- Fechamento da pele e músculos
- Colocação de drenos
- Envio do retalho ósseo para banco de osso ou inserção no subcutâneo abdominal (para preservação futura)
- Transferência para UTI
E após a craniectomia?
O paciente permanece com defeito ósseo (área mole no crânio).
Por isso:
- Deve usar capacete protetor ao se sentar ou andar.
- Deve evitar traumas.
- É monitorado em UTI por dias ou semanas.
- A cranioplastia será feita mais tarde (recolocação do osso ou implante).
Cuidados de enfermagem no pós-operatório imediato (UTI)
A enfermagem tem papel CRÍTICO:
Monitorização neurológica
- Escala de Glasgow
- Pupilas (tamanho e reatividade)
- Nível de consciência
- Força motora
Controle de PIC (se monitorizado)
- PIC < 20 mmHg é o objetivo
- Cabeceira elevada 30º
- Evitar flexão de pescoço
- Evitar estímulos dolorosos excessivos
Sinais vitais
- PA, FC, FR, SatO₂
- Arritmias
- Febre
Curativo e lesão cirúrgica
- Observar sangramento, edema, empastamento
- Verificar drenos (débito e aspecto)
Cuidados com a pele e posicionamento
- Prevenir úlceras de pressão
- Mudar decúbito a cada 2h
Prevenção de infecção
- Higiene rigorosa
- Técnica asséptica em curativos
- Uso de antibióticos conforme prescrição
Controle de dor
- Avaliar e medicar conforme prescrição
- Atenção ao uso de opioides (depressão respiratória)
Complicações da craniectomia
Precoces:
- Sangramento
- Edema cerebral progressivo
- Infecção (meningite, abscesso)
- Fístula liquórica
- Hidrocefalia
- Convulsões
- Instabilidade hemodinâmica
Tardias:
- Síndrome do afundamento do retalho (sinking skin flap syndrome)
- Alterações cognitivas e motoras
- Desequilíbrio de pressão intracraniana
- Deformidade craniana
- Reabsorção do osso (se armazenado abaixo da pele)
- Necessidade de cranioplastia complexa
Quando é feita a cranioplastia após craniectomia?
Geralmente de 3 a 6 meses após a craniectomia, quando o cérebro já está sem edema e não há infecção. A cranioplastia restaura o contorno do crânio e protege o cérebro permanentemente.
Papel da enfermagem na reabilitação pós-craniectomia
A enfermagem é fundamental para recuperação funcional:
- Estimular mobilização precoce
- Apoiar fisioterapia motora e respiratória
- Estimular comunicação e cognição
- Avaliar emoções e comportamento
- Ensinar uso de capacete protetor
- Educar paciente e família
- Apoiar adaptação psicossocial
- Preparar para cranioplastia futura
Impactos psicológicos
Pacientes com defeito craniano podem apresentar:
- Vergonha da aparência
- Ansiedade e depressão
- Isolamento social
- Alterações de autoestima
- Medo de lesão cerebral
O suporte emocional é essencial na reabilitação.
Prognóstico
A craniectomia salva vidas, mas:
- Pode deixar sequelas motoras ou cognitivas
- Depende da causa (TCE, AVC)
- Depende da idade e tempo de intervenção
- Cranioplastia melhora cognição e função motora em muitos pacientes
É uma cirurgia neurológica descompressiva e salvadora
A craniectomia é uma cirurgia neurológica descompressiva e salvadora, indicada em situações críticas de aumento da pressão intracraniana, traumas graves e AVC malignos. Ao remover parte do osso craniano, reduz a pressão, previne a herniação e aumenta a sobrevivência.
O procedimento exige manejo intensivo e acompanhamento em UTI. A enfermagem é protagonista em monitorização neurológica, prevenção de complicações, controle de PIC, cuidado com curativos, apoio emocional e preparação para reabilitação.
Posteriormente, a cranioplastia é realizada para restaurar a anatomia e proteção do crânio, completando o tratamento.
Dominar o conceito de craniectomia é fundamental para profissionais de saúde que atuam em neurologia, neurocirurgia, emergência, UTI e reabilitação, garantindo assistência segura, eficaz e humanizada.





