Quem recebe um diagnóstico de câncer já lida com medo, ansiedade e incertezas. Agora imagine descobrir a doença e precisar esperar quase meio ano para ser operado. É exatamente isso que muitos pacientes estão enfrentando na rede pública de saúde do estado de São Paulo. De acordo com dados oficiais, a média de espera para uma cirurgia oncológica no Sistema Único de Saúde (SUS) paulista chega a 161 dias — tempo suficiente para o quadro de saúde do paciente se agravar e a angústia virar rotina.
Em março de 2025, mais de 2.500 pessoas aguardavam na fila por esse tipo de procedimento. E isso sem contar os atrasos nos exames e nas consultas iniciais, que muitas vezes empurram ainda mais esse prazo.
A fila anda… devagar
Apesar de a Lei dos 60 Dias — sancionada em 2012 — obrigar o SUS a iniciar o tratamento de câncer (seja cirurgia, quimioterapia ou radioterapia) em no máximo dois meses após o diagnóstico, a realidade está bem distante do que está escrito no papel. A Secretaria Estadual da Saúde (SES) garante que está dentro da legalidade, afirmando que os tratamentos começam conforme manda a legislação. Mas os números mostram que a média de 161 dias ultrapassa, e muito, o tempo permitido por lei.
Ainda segundo a SES, esse número já foi pior: no começo da gestão de Tarcísio de Freitas, a média de espera era de impressionantes 390 dias — mais de um ano. A pasta afirma que tem feito esforço para reduzir a fila, ampliando o número de cirurgias oncológicas em 23% entre 2022 e 2024. Mas isso não muda o fato de que milhares de vidas estão em compasso de espera.
Outras cirurgias também emperram
O problema da fila não é exclusivo das cirurgias contra o câncer. Dados da própria Secretaria de Saúde mostram que a média de espera para qualquer tipo de cirurgia no estado é de 335 dias — praticamente 11 meses.
Em alguns casos, o tempo chega a beirar o absurdo: 701 dias para operar o sistema osteomuscular, 658 dias para cirurgias reparadoras e até 881 dias para outros tipos de procedimentos não especificados — ou seja, quase dois anos e meio na espera.
O que diz o governo estadual
Em nota ao Metrópoles, a SES afirma que a atual gestão realizou mais de 2,2 milhões de cirurgias eletivas nos dois primeiros anos de mandato. Só em 2024, segundo a pasta, foram mais de 1,2 milhão de procedimentos, com uma média de 3,2 mil cirurgias por dia. Ainda segundo o governo, o tempo médio de espera teria sido reduzido em até 82,6% em algumas especialidades, como cirurgia de mama, reparadora, do aparelho circulatório e orofacial.
A secretaria também informou que está trabalhando para unificar e descentralizar as filas de espera em todo o estado, priorizando os casos de urgência e emergência. No entanto, para quem está doente e precisa de tratamento imediato, toda essa organização ainda soa distante — o que se vê na ponta é o paciente contando os dias, tentando manter a esperança enquanto o relógio corre contra ele.
Conclusão amarga
Na prática, os dados escancaram o abismo entre a legislação e a realidade vivida por quem depende do SUS. Apesar das ações apontadas pelo governo paulista para tentar reverter o cenário, a espera prolongada por cirurgias, especialmente as de câncer, representa não apenas uma falha logística, mas uma ameaça direta à vida de milhares de paulistas. Ver também PF e CGU vão pra cima de suposto desvio de R$ 196 milhões na saúde de Santa Catarina.





