O Maranhão vive um fenômeno paradoxal na saúde: ao mesmo tempo em que a enfermagem registra um crescimento histórico de 43,61% nos últimos cinco anos, atingindo a marca de 96.922 profissionais ativos em novembro de 2025 , a categoria enfrenta uma das crises de sustentabilidade e saúde mental mais severas das últimas décadas. Composta majoritariamente por mulheres (88,43%), a força de trabalho que sustenta o SUS e a rede privada maranhense clama por mais do que fiscalização burocrática; exige-se um olhar clínico do Conselho Regional de Enfermagem do Maranhão (Coren-MA) sobre as feridas abertas da profissão.
O Gigante de Pés de Barro: Crescimento vs. Precarização
O salto de 54.650 inscritos em 2020 para quase 100 mil em 2026 foi impulsionado pela pandemia e pela abertura de novos postos na atenção primária. Contudo, a estrutura não acompanhou os números. Segundo levantamentos do perfil da enfermagem, 54,2% dos profissionais maranhenses relatam sinais de desgaste e exaustão (burnout).
A concentração excessiva de profissionais na capital (60,7%) cria desertos de assistência no interior, enquanto em São Luís, o subdimensionamento — quando há menos enfermeiros e técnicos do que o necessário para o número de leitos — tornou-se o principal vilão da segurança do paciente.
Os 4 Pontos Críticos que Exigem Atenção Urgente do Coren-MA
1. O Labirinto do Piso Salarial e os Retroativos Judiciais
Embora a Lei 14.434/2022 tenha estabelecido os valores de R$ 4.750 para enfermeiros e R$ 3.325 para técnicos, a implementação no Maranhão é uma colcha de retalhos.
- Vitórias Judiciais: Recentemente, o Estado do Maranhão foi condenado a pagar diferenças salariais e retroativos (maio a setembro de 2023) a técnicos que ficaram de fora dos repasses por erros cadastrais.
- O Papel do Conselho: A categoria exige que o Coren-MA não apenas fiscalize o exercício, mas atue como assistente qualificado em ações que obriguem municípios a repassar os R$ 53,5 milhões enviados pela União para o cumprimento do piso.
2. Subdimensionamento e “Desvio de Função”
Denúncias recentes apontam um cenário alarmante em unidades de grande porte. Em operações de fiscalização, o Coren-MA chegou a identificar um déficit acumulado de 2.404 profissionais em apenas 40 unidades inspecionadas.
- A “Enfermagem Maqueira”: O Conselho precisou intervir em casos onde enfermeiros e técnicos estavam sendo submetidos a atividades de maqueiro, comprometendo a vigilância direta sobre pacientes graves e violando a segurança assistencial.
3. A Crise no Hospital do Servidor e Unidades Estaduais
O Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público (SINTSEP) denunciou o “caos” no Hospital do Servidor (HSE/HSLZ), citando falta de transparência e sobrecarga extrema da equipe de enfermagem, que tenta manter o atendimento em meio a crises de financiamento. Mais de 1.300 falhas na assistência à saúde infantil foram registradas no estado em 2025, um dado que especialistas vinculam diretamente à fadiga das equipes de enfermagem.
4. Saúde Mental: A Emergência Silenciosa
A Semana da Enfermagem 2025 e 2026 colocou em pauta a “Saúde Mental e Bem-Estar do Profissional”. No entanto, a categoria pede ações concretas, como a obrigatoriedade de canais de apoio psicológico dentro das instituições e o combate rigoroso ao assédio moral, frequentemente relatado em reuniões de plenário.
O que o Coren-MA diz e o que precisa fazer
O presidente José Carlos Júnior destacou que a gestão 2024-2026 alcançou o feito inédito de fiscalizar todos os 217 municípios maranhenses. Entretanto, para os profissionais na “ponta”, a fiscalização precisa ser mais punitiva com as instituições que descumprem o cálculo de dimensionamento.
As metas prioritárias sugeridas pela categoria para 2026 incluem:
- Jornada de 30 Horas: Pressão política para a aprovação da PEC 19, que garante a jornada digna e o reajuste do piso.
- Lei do Primeiro Emprego: Implementação efetiva da Lei nº 12.779/2026 para absorver os recém-formados sem experiência, reduzindo o desemprego aberto que atinge 13,4% da categoria no estado.
- Presença Obrigatória do Enfermeiro: Rigor na decisão que obriga a presença de enfermeiros em 100% do horário de funcionamento de clínicas e hospitais, impedindo que técnicos atuem sem supervisão direta.
Conclusão
A enfermagem do Maranhão é uma força gigante, mas exausta. O Coren-MA, ao atingir a cobertura total do território, provou ter capilaridade. O desafio agora é transformar essa presença em proteção real, garantindo que o “cuidar” não custe a saúde mental e a dignidade financeira daqueles que estão na linha de frente.





