Faculdades de Medicina viram ativo financeiro e transformam a saúde em mercado

Faculdades de Medicina viram ativo financeiro e transformam a saúde em mercado

O Brasil vive um boom sem precedentes na abertura de cursos de Medicina – uma expansão que transformou a formação médica em um verdadeiro negócio bilionário. Nos últimos 25 anos, o país saltou de cerca de 100 faculdades de Medicina em 1997 para quase 500 cursos em 2025, tornando-se o segundo país com mais escolas médicas do mundo (atrás apenas da Índia). Essa explosão de cursos – concentrada majoritariamente no setor privado – levanta debates acalorados sobre qualidade do ensino, impactos no sistema de saúde e as consequências de se encarar a Medicina como mercadoria.

Explosão de cursos: de 100 para 500 e rumo ao topo mundial

A quantidade de faculdades de medicina no Brasil quintuplicou desde a década de 1990. Em 1997, existiam cerca de 85 a 100 escolas médicas; hoje são praticamente 500, número inferior apenas à Índia. Para efeito de comparação, os Estados Unidos (com população bem maior que a brasileira) têm apenas 131 escolas de Medicina. No Brasil, essa multiplicação ocorreu em ritmo acelerado nas últimas duas décadas: triplicamos o número de cursos desde 2004, passando de 143 escolas médicas em 2004 para 448 em 2024, com tendência de atingir a marca de 500 cursos autorizados em 2025.

Esse crescimento vertiginoso reflete políticas governamentais e interesses privados. A partir de 2013, o programa Mais Médicos impulsionou a abertura de novas vagas, sobretudo em cidades do interior, como estratégia para aumentar a proporção de médicos na população. Como resultado, foram criadas em média 2,5 mil vagas de Medicina por ano de 2014 em diante, fazendo o total de vagas anuais saltar de 13.820 em 2004 para 48.491 em 2024. A figura abaixo (Demografia Médica/FMUSP) ilustra essa evolução exponencial das vagas de graduação em Medicina no Brasil entre 2004 e 2025:

AnoVagas de Medicina (total)Vagas em PrivadasVagas em Públicas
200413.8207.8735.947
201423.50515.1468.359
202448.49138.45010.041
2025¹50.974~40.800~10.200

Fonte: Demografia Médica no Brasil 2025 (FMUSP). ¹Estimativa 2025 com base nas autorizações até 09/2025 (total de 50.974 vagas).

Essa tabela evidencia que a expansão foi puxada quase exclusivamente pelo setor privado. Desde 2014, 91,5% das novas vagas abertas estão em faculdades particulares. Enquanto as vagas em instituições públicas cresceram timidamente (de ~8,3 mil para 10 mil entre 2014 e 2024), as vagas em instituições privadas dispararam de 15,1 mil para 38,45 mil no mesmo período. Hoje, cerca de 80% de todas as vagas de Medicina estão em escolas privadas – um quadro bem diferente do passado, quando a formação médica era concentrada em universidades públicas tradicionais.

“Médico como sal”: abundância, baixo custo e qualidade em xeque

A lógica por trás dessa proliferação de cursos pode ser resumida em uma frase polêmica, atribuída a políticas de saúde do passado: “Médico tem que ser igual a sal: branco, em abundância e barato.”. Em outras palavras, formar médicos em massa para que estejam em toda parte e a baixo custo – uma metáfora que hoje ressurge no debate sobre a qualidade da formação médica e as condições de trabalho dos profissionais. Se por um lado o Brasil precisa de mais médicos em regiões carentes, por outro a “profecia do médico-sal” levanta um alerta: estariam os médicos se tornando um “produto commoditizado”, abundante no mercado e com remuneração aviltada?

Especialistas vêm manifestando preocupação de que a rápida expansão desordenada comprometa a qualidade do ensino médico e a própria assistência à saúde. A criação de tantos cursos, muitas vezes sem estrutura adequada (hospitais de ensino, preceptores, laboratórios), traz o risco de formarmos médicos mal preparados. Para o professor Mário Scheffer, coordenador do estudo Demografia Médica (FMUSP), “a expansão terá impactos significativos: aumenta a disponibilidade de médicos, mas acentua o descompasso entre vagas de graduação e de Residência Médica”. Ou seja, coloca-se no mercado um número recorde de recém-formados sem garantir vagas de especialização para todos – o que pode gerar uma legião de médicos generalistas com formação insuficiente e subemprego na área.

Outro efeito já sentido é a queda na concorrência dos vestibulares de Medicina. Com muito mais cursos e vagas disponíveis, a relação candidato/vaga despencou de patamares altíssimos (cerca de 46 candidatos por vaga em 2012) para algo em torno de 19 por vaga atualmente. Ou seja, ficou mais “fácil” entrar em Medicina, o que pode indicar uma diluição do critério seletivo. Embora isso democratize o acesso à carreira médica, também acende um sinal sobre a capacitação média dos ingressantes egressos no mercado.

Diante desse cenário, o Ministério da Educação anunciou medidas para monitorar a qualidade dos cursos. Em 2023 foram homologadas novas Diretrizes Curriculares para Medicina e implementado o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) – uma prova obrigatória no 4º ano de curso para aferir competências dos estudantes antes do internato. A ideia é criar um filtro de qualidade mínimo nacional. Além disso, entidades médicas pedem moratória na abertura de novos cursos e maior rigor na regulação. “Não é contra o mercado, e sim por critérios bem definidos de qualidade. Há boas experiências privadas, mas é preciso verificar se todas cumprem requisitos adequados”, defende o pesquisador Bruno Oliveira (UFMA).

Privatização da educação médica: grandes grupos à frente

Por trás da multiplicação de cursos está um fenômeno marcante: a entrada de conglomerados privados de educação em peso no mercado médico. Cursos de Medicina tornaram-se os ativos mais cobiçados do ensino superior, comparados por analistas financeiros ao “iPhone” das faculdades – produtos premium de altíssima rentabilidade. Não à toa, todos os grandes grupos educacionais do país travam uma verdadeira corrida por novas vagas.

Os cinco principais players desse mercado – Afya, Yduqs, Ânima, Ser Educacional e Cruzeiro do Sul – adotaram estratégias agressivas de expansão, seja comprando faculdades de medicina existentes, seja disputando autorizações em editais (e até na justiça). A seguir, resumimos o papel de cada grupo na “guerra dos jalecos”:

  • Afya – Fundada em 1997 no Tocantins, a Afya é hoje a líder em educação médica privada no Brasil. O grupo abriu capital na bolsa Nasdaq em 2019 e, desde então, investiu pesado em aquisições: R$ 3,2 bilhões em três anos para comprar 10 faculdades de Medicina, consolidando-se como a maior rede do país no ramo. Controlada pelo conglomerado alemão Bertelsmann, a Afya opera mais de 3,1 mil vagas de Medicina e 19 mil alunos após essas compras. Em 2023, chegou a pagar R$ 380 milhões por uma única instituição (Faculdade de Ciências Médicas da Paraíba), o que equivale a R$ 2,4 milhões por vaga adquirida – um recorde que demonstra o apetite e recursos do grupo.
  • Yduqs – Dona da Estácio, a Yduqs estruturou uma vertical “premium” voltada à área da saúde, com foco em Medicina. Além de expandir cursos próprios, realizou aquisições importantes: em 2020, por exemplo, comprou operações da Adtalem (incluindo cursos de Medicina) por cerca de R$ 2 bilhões, ampliando sua presença no segmento. Nos últimos anos, adquiriu aproximadamente 410 vagas de Medicina em faculdades no Piauí, Acre, Rondônia e Mato Grosso. A Yduqs também aguarda novos pedidos de cursos – em 2025, pleiteava mais 60 vagas junto ao MEC, ainda em análise.
  • Ânima – O grupo Ânima Educação entrou de vez no ensino médico ao comprar, em 2021, a operação brasileira da Laureate por cerca de R$ 4 bilhões (incorporando diversas escolas médicas, como Anhembi Morumbi e IBMR). De lá para cá, a Ânima seguiu ampliando seu portfólio premium: em 2021-2022, adquiriu 522 vagas de Medicina em quatro transações (incluindo cursos na Bahia, Santa Catarina e Minas Gerais). Em 2024, obteve aprovação para mais um novo curso (50 vagas) e busca autorização para outras 60 vagas adicionais. Hoje, mais de 20% das vagas de medicina autorizadas no país já estão concentradas em grupos privados como a Ânima e seus pares.
  • Ser Educacional – Tradicional nas regiões Norte/Nordeste, a Ser protagonizou uma arrancada recente na “placar” de novos cursos. Entre dezembro de 2024 e agosto de 2025, o grupo obteve autorização do MEC para 8 novos cursos de medicina (480 vagas) – mais do que qualquer concorrente no período. Essa conquista deu fôlego às ações da Ser na bolsa, com analistas projetando grande valorização caso ela confirme todas as vagas pleiteadas. Em aquisições, a Ser foi mais discreta, comprando 75 vagas (Rondônia) no último ano, mas é claramente uma das empresas mais agressivas na busca por autorizações governamentais.
  • Cruzeiro do Sul – O grupo Cruzeiro do Sul Educacional, dono de diversas universidades, também entrou na disputa. Em 2023, adquiriu a Universidade Positivo (PR) – que possuía curso de Medicina – ampliando sua atuação no segmento. No ciclo de editais recente, a Cruzeiro conseguiu aprovação de 3 novos cursos (180 vagas) e tem 14 pedidos tramitando na justiça (11 para novos cursos e 3 para aumento de vagas) esperando aval. A diretora acadêmica do grupo, Beatriz Hoff, defende a liberação irrestrita: “Investimos alto em infraestrutura; em respeito a isso, o STF não pode barrar a abertura dessas vagas”, afirmou, ao comentar os processos judiciais em curso.

Essa corrida pelas vagas de Medicina se explica pelos excepcionais indicadores financeiros desses cursos. Diferentemente de graduações comuns (Direito, Administração etc.), as turmas de Medicina combinam mensalidades elevadas com evasão baixíssima e inadimplência quase nula. Segundo um estudo da Ondina Investimentos, nos últimos anos grupos educacionais pagaram em média R$ 1,4 milhão por vaga em aquisições de escolas médicas – um “prêmio” astronômico frente à média de apenas R$ 13 mil pagos por vaga de cursos não-médicos no mesmo período. Ou seja, ter Medicina no portfólio virou sinônimo de lucros robustos e garantia de retorno, algo cada vez mais raro no ensino superior pós-FIES.

O negócio da Medicina: mensalidades milionárias e lucro fácil

O ensino de Medicina consolidou-se como um mercado de R$ 26 bilhões anuais no Brasil. Estimativas indicam que cerca de 175 mil estudantes estejam matriculados em faculdades particulares de Medicina atualmente, representando 40% de todo o faturamento do ensino superior privado. Os números impressionam: com mensalidades mensais que variam de R$ 8 mil a R$ 15 mil (dependendo da instituição e região), cada aluno de medicina pode gerar mais de R$ 1 milhão em receita ao longo dos 6 anos de curso. Isso explica por que investidores valorizam tanto cada nova vaga aberta – analistas do banco BTG Pactual calculam que historicamente cada vaga de medicina vale entre R$ 2 e 3 milhões para o mercado.

Além do tíquete alto, a previsibilidade de caixa é outro atrativo: a evasão é mínima (quase ninguém larga o curso) e a inadimplência tende a ser baixa, dado o perfil socioeconômico dos alunos e a forte demanda reprimida. Trata-se de um fluxo de pagamentos garantido por até 12 semestres, algo que nenhum outro curso oferece. As margens de lucro também são superiores – mesmo com o alto custo operacional (laboratórios, hospitais de ensino, etc.), muitos cursos de Medicina operam com margens acima de 40%, patamar invejável no setor educacional.

Esse caráter de “ativo premium” tornou as vagas de medicina o foco de disputas empresariais e também jurídicas. Grandes educacionais chegaram a pagar fortunas por instituições apenas para incorporar seus cursos de Medicina, como apontou Francisco Borges, consultor da Fundação FAT: “As maiores investiram bastante comprando IES só para ter Medicina. A Afya, por exemplo, é focada só em saúde; a Yduqs criou uma vertical premium de Saúde”. Porém, a rápida ampliação da oferta – especialmente via decisões judiciais – começa a alterar a equação de escassez que mantinha os preços elevados. Se todos os novos cursos na justiça forem liberados (cerca de 176 processos, somando 10 mil vagas), isso representaria um aumento de 33% na oferta e possivelmente forçaria uma queda nas mensalidades diante da maior concorrência. Esse “risco” preocupa tanto investidores quanto instituições já estabelecidas.

Vale notar que montar um curso de medicina exige investimento pesado: a estimativa da Anup (associação das universidades privadas) é de pelo menos R$ 14 milhões de custo inicial por nova faculdade de Medicina. Laboratórios de anatomia, contratação de professores doutores, parcerias com hospitais – tudo isso eleva a barreira de entrada. Ainda assim, o retorno financeiro compensa: pagando R$ 14 mi para abrir 50 vagas anuais, uma faculdade pode arrecadar R$ 6 a 9 milhões por ano em mensalidades, atingindo o payback em poucos anos após formar as primeiras turmas. Essa dinâmica extremamente lucrativa explica por que há uma fila de mantenedoras e grupos dispostos a tudo – inclusive acionar a Justiça – para conquistar um pedaço desse mercado bilionário.

Moratória, liminares e lobby: a batalha regulatória

Diante da explosão de cursos particulares, o Governo Federal tentou pôr um freio. Em 2018, o Ministério da Educação decretou uma moratória de 5 anos na abertura de novos cursos de Medicina (e também vetou aumento de vagas nos cursos existentes). A justificativa era de que as metas de expansão já tinham sido atingidas e era preciso estancar o crescimento para garantir a qualidade do ensino. Contudo, essa moratória (que vigorou até 2023) não conteve totalmente a maré – ela acabou empurrando a disputa para o campo judicial.

Desde então, muitas instituições recorreram aos tribunais para driblar a proibição. O resultado foi uma onda de liminares judiciais autorizando novos cursos e vagas sem o aval do MEC. Somente em 2023, estima-se que 6,3 mil novas vagas de medicina foram abertas no país, das quais 3,5 mil (mais de 55%) via decisões liminares obtidas na Justiça. Essas faculdades chegaram a realizar vestibulares amparadas por autorizações provisórias, gerando uma situação caótica: o MEC notificou ao menos 6 instituições por ofertar cursos sem autorização formal em 2024.

O embate culminou no Supremo Tribunal Federal. A Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) – que representa as próprias instituições privadas de ensino – ingressou com ação no STF contra a proliferação desenfreada de vagas por via judicial. Paradoxalmente, as grandes redes privadas se posicionaram contra a “farra” de liminares: temem que a abertura indiscriminada de cursos por pequenos grupos acabe saturando o mercado e “atentando contra a qualidade da formação médica”, nas palavras da presidente da Anup, Elizabeth Guedes. A entidade questiona mais de 180 processos judiciais que pediam cerca de 20 mil novas vagas em todo o país.

O STF começou a julgar a questão no fim de 2023. Até o último andamento conhecido, o placar estava dividido: dois ministros (Fachin e Rosa Weber) votaram por suspender todos os processos judiciais de abertura de cursos, enquanto o relator Gilmar Mendes (apoiado por Luiz Fux) propôs uma saída intermediária – permitir a continuidade apenas dos pedidos já em fase final de avaliação pelo MEC, barrando os demais. A decisão final, porém, foi postergada e – enquanto não vem – novas brechas são exploradas. Em 2024, com o fim oficial da moratória, o MEC voltou a analisar alguns pedidos de novos cursos, mas de forma muito criteriosa e lenta. Cada autorização liberada virou motivo de celebração entre investidores, dada a escassez imposta.

Nesse vaivém regulatório, destaca-se o lobby regional e político. Estudos mostram que, entre 2024 e 2025, o Nordeste concentrou 43% das novas vagas autorizadas pelo MEC, seguido do Sudeste (23%). Prefeitos e parlamentares de cidades do interior pressionaram por faculdades locais, vendo nelas oportunidades de desenvolvimento. Cidades médias como Feira de Santana (BA), Sobral (CE) e Joinville (SC) chegaram a receber duas autorizações simultâneas cada uma. “Essa expansão reflete tanto o lobby do setor privado da educação quanto a pressão política de municípios beneficiados”, analisa o Prof. Scheffer. Em suma, a abertura de cursos virou também moeda política e pauta de desenvolvimento regional, dificultando a adoção de um planejamento nacional racional.

Médicos versus enfermeiros: desequilíbrio e desafios futuros

Se no passado o Brasil sofria com a escassez de médicos, o cenário caminha para o extremo oposto: a possível superação do número de enfermeiros pelo de médicos em formação. Atualmente, o país conta com cerca de 600 mil médicos ativos e 700 mil profissionais de enfermagem, uma proporção de apenas 1,2 enfermeiro por médico. Essa relação já é muito baixa comparada a países desenvolvidos – no Reino Unido há mais de 7 enfermeiros por médico, nos Estados Unidos são 5 por médico. Mantida a trajetória atual, especialistas projetam que até 2030 o Brasil pode ter mais médicos do que enfermeiros em atividade, algo inédito e potencialmente desastroso para o funcionamento do sistema de saúde.

“Até 2035, o número de médicos no Brasil deve dobrar”, alerta o médico e advogado Raul Canal, presidente da Anadem (Associação de Defesa Médica). “Não basta formar mais médicos: é preciso criar incentivos para fixá-los em regiões remotas e planejar as equipes de saúde”. A projeção de diversos estudos – incluindo a Demografia Médica 2025 da USP – aponta que poderemos ultrapassar 1,15 milhão de médicos em 2035 (5,2 médicos por 1.000 habitantes) mantendo o ritmo atual de formandos. Contudo, se não houver equilíbrio com outras categorias, esse excesso relativo de médicos poderá comprometer a qualidade assistencial. Médicos sem equipe de apoio (enfermeiros, técnicos, agentes de saúde) tendem a ser subaproveitados, enquanto faltam profissionais na linha de frente do cuidado.

Há também o risco da saturação profissional. Com mais de 50 mil novos médicos ingressando no mercado a cada ano, a concorrência por vagas de residência e empregos de qualidade se acirra. Regiões metropolitanas já apresentam indícios de “encavalamento” de médicos, ao passo que áreas rurais e periferias urbanas continuam desassistidas. “A má distribuição se perpetua se não houver incentivos reais para médicos irem e permanecerem onde há carência”, defende Raul Canal, indicando que simplesmente aumentar o contingente não garante acesso universal. Sem planejamento, poderemos ter 1,2 milhão ou até 1,7 milhão de médicos em 2035, mas concentrados nos mesmos polos de sempre e muitos enfrentando desemprego ou subutilização.

Outro dado que merece atenção é o perfil dos futuros médicos. Pela primeira vez, as mulheres já são maioria entre os médicos ativos no Brasil (50,9%), com projeção de chegarem a 56% em 2035. A feminização e o rejuvenescimento da medicina trazem mudanças nas preferências de especialidades e jornadas de trabalho, que precisam ser consideradas no planejamento do sistema de saúde. Além disso, a formação acelerada levanta a questão: quantos desses novos médicos terão a qualificação adequada? Iniciativas como o Enamed (exame nacional de estudantes) e a avaliação no 4º ano são tentativas de resposta, mas seus resultados práticos ainda dependem de implementação consistente.

Comparando internacionalmente, a simples razão médicos por habitante deixará de ser um problema brasileiro – poderemos atingir cerca de 5 médicos por 1.000 hab. em 2030, patamar semelhante ao de países europeus ricos. Contudo, a dívida em outros indicadores (como enfermeiros por habitante, distribuição geográfica equilibrada e resolutividade da Atenção Primária) pode tornar esse exército de médicos subeficiente. No Reino Unido, por exemplo, há cerca de 3 enfermagens para cada médico no sistema público, e o atendimento básico é feito majoritariamente por generalistas bem distribuídos. Já o Brasil corre o risco de formar muitos médicos especialistas concentrados e ainda carecer de equipes multidisciplinares no SUS.

A guerra dos jalecos

Em síntese, a “guerra dos jalecos” expressão cunhada para descrever a disputa pelo ensino médico – trouxe ganhos e desafios. De um lado, mais médicos sendo formados pode significar mais acesso e alívio onde faltavam profissionais. De outro, transformou-se a Medicina em um grande negócio lucrativo, nem sempre acompanhado do devido controle de qualidade. O negócio bilionário das faculdades de Medicina atraiu investidores e abriu oportunidades, mas também acirrou a necessidade de regulação inteligente: como equilibrar interesse privado e interesse público? Como assegurar que a expansão atenda às necessidades da população sem degradar a formação? Essas perguntas seguem em aberto.

Ao que tudo indica, o Brasil precisa urgentemente passar do quantitativo ao qualitativo: formar médicos “como sal” – em quantidade e em toda parte – não basta se não tiver sabor. É preciso garantir que esse enorme contingente vista o jaleco branco com competência, e que trabalhe em equipes harmônicas, para que o saldo final seja positivo para a sociedade. A guerra dos jalecos, afinal, deve ter como vencedor o interesse público na saúde – e não apenas os balanços financeiros dos grupos educacionais.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *