Fiscalização não pode virar abuso dentro do hospital

Fiscalização não pode virar abuso dentro do hospital

Quando um vereador, deputado ou qualquer outro agente político entra em um hospital para fiscalizar, é importante lembrar que fiscalização não é licença para desrespeitar profissionais, atrapalhar atendimentos ou transformar o ambiente de assistência em palco de intimidação. O hospital é um espaço de cuidado, concentração e responsabilidade. Ali, médicos, enfermeiros, técnicos e toda a equipe trabalham sob pressão, lidando com vidas reais, decisões urgentes e rotinas exaustivas.

O problema começa quando a chamada “fiscalização” deixa de ser institucional e passa a ser invasiva. Isso acontece quando o político interrompe procedimentos, faz questionamentos em tom de acusação durante o atendimento, tenta encontrar ilegalidades a qualquer custo, constrange trabalhadores diante de pacientes e acompanhantes ou cria um ambiente de tensão que só piora a assistência. Em vez de contribuir para a melhoria do serviço, esse tipo de conduta causa medo, desgaste e desorganização.

A situação se torna ainda mais grave quando há invasão do espaço de repouso da equipe. Ir até o descanso dos profissionais para acordá-los, expô-los ou pressioná-los é ultrapassar todos os limites do respeito e da razoabilidade. O repouso da equipe de saúde não é privilégio. É uma necessidade mínima para que esses trabalhadores consigam manter atenção, equilíbrio e segurança no cuidado prestado. Desrespeitar esse momento é desrespeitar também o paciente, porque compromete diretamente a qualidade da assistência.

Fiscalizar o serviço público é um dever legítimo.

Mas fiscalizar não significa humilhar, acusar sem prova, filmar indiscriminadamente, interromper rotinas sensíveis ou agir como se o hospital fosse território de disputa política. A fiscalização séria deve observar critérios, respeitar fluxos internos, preservar o sigilo, não interferir no atendimento e tratar os profissionais com a dignidade que o exercício da função exige.

Nenhum profissional de saúde deve ser constrangido no exercício de seu trabalho por alguém que busca visibilidade, confronto ou exposição. Hospital não é cenário para espetáculo. Não é lugar para perseguição. Não é lugar para acordar trabalhador em repouso como se isso fosse demonstração de autoridade. Quem realmente respeita a saúde entende que defender o paciente também significa defender condições mínimas para que a equipe possa trabalhar com segurança, foco e respeito.

No fim, a verdadeira fiscalização é aquela que identifica falhas sem destruir a rotina do cuidado. É aquela que cobra melhorias sem humilhar quem está na linha de frente. E é aquela que entende que, dentro de um hospital, a prioridade deve ser sempre a vida, nunca o interesse político.

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