Austrália reduz câncer do colo do útero e Brasil avança na mesma direção

Austrália reduz câncer do colo do útero e Brasil avança na mesma direção

A Austrália está próxima de se tornar o primeiro país do mundo a eliminar o câncer de colo do útero como problema de saúde pública, resultado de uma estratégia consistente que combina vacinação em massa contra o HPV e um modelo moderno de rastreamento da doença. O Brasil, embora enfrente desafios regionais, segue trajetória semelhante e apresenta avanços importantes.

A experiência australiana tem sido acompanhada de perto por autoridades sanitárias internacionais e demonstra que políticas públicas contínuas podem mudar o curso de uma doença que ainda afeta milhares de mulheres todos os anos.

Queda histórica nos casos na Austrália

Dados do Cervical Cancer Elimination Progress Report 2025, divulgado em novembro, confirmam a redução sustentada da incidência da doença no país.

Em 2021, a taxa caiu para 6,3 casos por 100 mil mulheres, abaixo dos 6,6 registrados no ano anterior. Um marco simbólico foi alcançado: nenhum caso foi registrado entre mulheres com menos de 25 anos, algo que não ocorria desde 1982.

O resultado reforça o impacto direto das estratégias de prevenção, especialmente entre as gerações mais jovens.

Menos vírus circulando e menos lesões graves

O programa organizado de rastreamento também reduziu de forma significativa as lesões precursoras do câncer. Entre as mulheres acompanhadas, a detecção de lesões intraepiteliais de alto grau (HSIL) caiu 21%, indicando que muitas alterações de risco já foram identificadas e tratadas antes de evoluir.

A circulação dos subtipos mais agressivos do vírus também diminuiu. Em 2024, a prevalência do HPV 16 e 18 responsáveis pela maioria dos casos de câncer cervical — ficou em 1,4%. Outros tipos de alto risco apresentaram queda adicional de 6,9% desde 2019.

Esse cenário positivo se reflete na sobrevida: a taxa de sobrevivência em cinco anos subiu de 73,9% para 76,8%, segundo o Departamento de Saúde australiano.

Estratégia baseada em testes mais sensíveis

O ponto de virada ocorreu em 2017, quando a Austrália substituiu o exame de Papanicolau pelo teste de HPV como principal método de rastreamento.

Os números mostram a adesão ao modelo:

  • 85% das mulheres entre 35 e 39 anos já realizaram ao menos um teste de HPV até o fim de 2024;
  • A cobertura nacional de exames atualizados chegou a 74,2%;
  • Entre 2019 e 2023, mais de 5 milhões de pessoas participaram do programa.

Esse desempenho coloca o país muito próximo da meta global de eliminação do câncer do colo do útero estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Brasil amplia vacinação e muda rastreamento

O Brasil também vive um momento decisivo. O país possui um dos maiores programas públicos de imunização do mundo e vem promovendo a mais ampla mudança no rastreamento do câncer do colo do útero das últimas décadas.

O HPV está associado a cerca de 80% dos casos da doença, além de outros tipos de câncer, como os de vulva, pênis, ânus e orofaringe. A vacinação gratuita oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é a principal ferramenta de prevenção.

Em 2024, a cobertura da primeira dose da vacina contra o HPV ultrapassou 82% entre meninas e chegou a 67% entre meninos, com crescimento progressivo. Desde 2023, vítimas de violência sexual também passaram a integrar os grupos prioritários.

Teste de DNA-HPV começa a ser implantado

Desde 2025, o Brasil iniciou a implementação gradual do teste de DNA-HPV como método primário de rastreamento, substituindo o Papanicolau.

A nova abordagem oferece vantagens importantes:

  • maior sensibilidade para identificar o risco;
  • intervalo de até cinco anos após resultado negativo;
  • possibilidade de autocoleta em populações específicas;
  • detecção do vírus antes do surgimento de lesões.

O principal desafio, segundo especialistas, é garantir acesso equitativo, logística eficiente e continuidade do cuidado, especialmente em regiões mais vulneráveis.

Desigualdades ainda pesam no cenário brasileiro

De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registra cerca de 17 mil novos casos por ano no triênio 2023–2025. O câncer do colo do útero ainda figura entre as principais causas de morte por câncer em mulheres jovens.

As maiores taxas de incidência e mortalidade se concentram nas regiões Norte e Nordeste, onde o acesso ao rastreamento e ao tratamento precoce é mais limitado.

Diagnóstico precoce salva vidas

Nas fases iniciais, o câncer do colo do útero costuma ser assintomático, o que torna o rastreamento essencial. Alguns sinais que merecem atenção incluem:

  • sangramento fora do período menstrual;
  • sangramento após a relação sexual;
  • corrimento persistente e anormal;
  • dor pélvica.

Quando identificado precocemente, o tratamento é menos invasivo e as chances de cura são significativamente maiores.

A experiência australiana mostra que vacinação, rastreamento moderno e acesso contínuo ao cuidado podem tornar o câncer do colo do útero uma doença cada vez mais rara — um objetivo que o Brasil começa, passo a passo, a perseguir.

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