Ilustração mostra planeta Terra envolto por laço vermelho do HIV e mãos simbolizando proteção e cuidado

Crise climática amplia desafios na prevenção e tratamento do HIV

A intensificação da crise climática tem provocado impactos diretos e indiretos na prevenção e no tratamento do vírus da imunodeficiência humana (HIV). Um estudo recente publicado na revista Current Opinion in Infectious Diseases aponta que fenômenos climáticos extremos estão associados ao aumento da vulnerabilidade à infecção e à piora das condições de saúde de pessoas que já vivem com o vírus.

A análise reuniu dados de 22 pesquisas realizadas entre 2022 e 2024 por pesquisadores vinculados a instituições do Canadá, evidenciando como alterações ambientais comprometem serviços de saúde, estratégias preventivas e a continuidade do cuidado.

Seca e escassez de água reduzem prevenção ao HIV

De acordo com o levantamento, a seca prolongada e a falta de acesso à água potável figuram entre os fatores com maior impacto negativo sobre a prevenção do HIV. Em regiões dos Estados Unidos e do continente africano, esses eventos foram associados à redução da testagem e ao aumento de comportamentos considerados de risco.

Entre eles estão relações sexuais sem preservativo e o chamado sexo transacional, caracterizado pela troca de relações sexuais por dinheiro, bens ou favores, prática que tende a se intensificar em contextos de insegurança alimentar e econômica.

Enchentes e chuvas intensas dificultam diagnóstico e tratamento

O estudo também aponta que chuvas intensas e enchentes ampliam o risco de infecção pelo HIV ao dificultar o acesso aos serviços de saúde. A destruição de infraestrutura, o fechamento temporário de unidades e o redirecionamento de equipes para situações emergenciais comprometem ações de prevenção, diagnóstico e acompanhamento clínico.

Segundo especialistas, nesses cenários, medidas preventivas acabam sendo deixadas em segundo plano diante da necessidade imediata de resposta às tragédias ambientais.

Impactos também atingem o Brasil

Embora os efeitos sejam mais severos em países de baixa renda, eles também são observados em nações em desenvolvimento e desenvolvidas. No Brasil, estudos associam o aumento de notificações de HIV a períodos de seca no Nordeste e a enchentes no Sul do país.

Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, publicada em 2024, mostrou que as enchentes em Porto Alegre afetaram a continuidade do uso da profilaxia pré-exposição (PrEP). Parte dos usuários conseguiu manter o tratamento por meios alternativos, enquanto outros interromperam o uso por não conseguirem chegar aos serviços de saúde.

Consequências individuais e estruturais

Os efeitos da crise climática se manifestam tanto no plano individual quanto no coletivo. Danos a unidades de saúde, interrupções no transporte, deslocamentos forçados e sobrecarga das equipes médicas criam um ciclo de fragilidade que compromete o cuidado contínuo.

A pesquisa relaciona a seca à menor adesão ao tratamento antirretroviral, além de interrupções no acompanhamento clínico e piora de indicadores como carga viral e contagem de células CD4, fundamentais para avaliar o estado imunológico do paciente.

A falta de água e alimentos dificulta o uso correto dos medicamentos, aumenta quadros de desidratação e favorece o surgimento de infecções oportunistas, além de estimular migrações que dificultam o acompanhamento regular.

Desastres súbitos e riscos adicionais

Em situações de desastres abruptos, como tempestades severas, furacões e incêndios florestais, podem ocorrer fechamentos de clínicas, perda de estoques de medicamentos e falhas na distribuição de insumos essenciais.

Além dos impactos físicos, há riscos psicológicos, como estresse pós-traumático, depressão e receio de revelar o status sorológico em contextos de abrigamento emergencial, o que pode levar à interrupção do tratamento.

Redução de recursos agrava cenário global

A resposta ao HIV também enfrenta desafios financeiros. Relatório recente do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids alertou para os efeitos da suspensão do Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para o Alívio da Aids (PEPFAR), responsável por cerca de 75% do financiamento global da luta contra o HIV.

A retirada desses recursos ocorre em um momento em que muitos países já lidam com altos custos de adaptação às mudanças climáticas, estimados em centenas de bilhões de dólares por ano, reduzindo o orçamento disponível para a saúde.

No curto prazo, a falta de financiamento resultou no fechamento de clínicas, demissões de profissionais de saúde, interrupções nas cadeias de suprimento e escassez de medicamentos, especialmente na África Subsaariana.

Prevenção em risco e aumento de infecções

O impacto financeiro também atingiu organizações comunitárias e programas de prevenção. Milhões de pessoas perderam acesso à PrEP, e diversos países registraram queda significativa na cobertura preventiva, inclusive entre gestantes que vivem com HIV.

Apesar disso, o relatório destaca iniciativas de resiliência, sobretudo na África, com esforços para ampliar o financiamento interno e fortalecer a produção regional de medicamentos.

Planejamento como estratégia de resposta

Especialistas defendem que o enfrentamento do HIV em um contexto de crise climática exige planejamento específico. A incorporação do risco climático às políticas públicas de saúde é apontada como essencial para garantir a continuidade da prevenção e do tratamento.

Entre as estratégias recomendadas estão a ampliação da telemedicina, o uso de clínicas móveis, a descentralização da distribuição de medicamentos e a adoção de esquemas terapêuticos de longa duração.

Avanços recentes incluem a aprovação de novas opções de PrEP injetável pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, como medicamentos de aplicação bimestral ou semestral, que podem facilitar a prevenção em cenários de instabilidade climática.

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