Demissão de enfermeiras em Jacaraú gera reação do Coren-PB

Demissão de enfermeiras em Jacaraú gera reação do Coren-PB

A demissão de duas enfermeiras da rede municipal de saúde de Jacaraú, no Litoral Norte da Paraíba, após a divulgação de uma fotografia registrada durante o atendimento a um grave acidente de trânsito, segue gerando ampla repercussão nacional. Este caso aprofunda o debate sobre ética profissional, legalidade administrativa, direitos fundamentais dos servidores públicos e os limites da atuação do poder público diante de situações de forte comoção social.

O episódio ocorreu na terça-feira (16), quando as profissionais, vinculadas à Unidade de Saúde Dara Ribeiro, foram acionadas para atender uma colisão entre uma motocicleta e um automóvel em uma rodovia próxima ao município. O acidente resultou na morte de uma pessoa e deixou outra ferida, exigindo atuação imediata das equipes de saúde e posterior intervenção das forças de segurança.

De acordo com informações repassadas pela diretora da unidade, Simone Teixeira, as enfermeiras estavam em serviço e cumpriram o dever funcional ao se deslocarem até o local para prestar assistência às vítimas. Durante a espera pela chegada da Polícia Militar, uma fotografia foi registrada no cenário do acidente, imagem que posteriormente viria a ser amplamente divulgada fora de qualquer contexto institucional.

Divulgação da imagem, julgamento público e demissão imediata

A circulação da fotografia em redes sociais e aplicativos de mensagens provocou forte reação popular. Em meio à comoção gerada pelo óbito, a Prefeitura de Jacaraú anunciou, já na quarta-feira (17), a demissão das duas servidoras, por meio de nota publicada em seus canais oficiais.

No comunicado, a gestão municipal afirmou que “não compactua com condutas que contrariem os princípios da ética profissional, do respeito e do cuidado humanizado no serviço público”, sustentando que a decisão teria como base valores institucionais e compromisso com a população.

No entanto, a rapidez da medida passou a ser alvo de críticas. Entidades de classe, profissionais da enfermagem e especialistas em direito administrativo apontaram que a demissão ocorreu sem instauração prévia de processo administrativo, sem apuração técnica e sem garantia do contraditório e da ampla defesa, princípios assegurados pela Constituição Federal.

Ética profissional e limites do julgamento administrativo

O caso trouxe à tona uma discussão central: a diferença entre reprovação moral imediata, impulsionada pela repercussão pública, e a avaliação ética profissional formal. No âmbito da enfermagem, eventuais infrações éticas são reguladas pelo Código de Ética da Enfermagem e devem ser analisadas exclusivamente pelo sistema Cofen/Conselhos Regionais, mediante processo próprio, com critérios técnicos e respeito ao direito de defesa.

Nesse contexto, o Conselho Regional de Enfermagem da Paraíba (Coren-PB) se manifestou oficialmente, esclarecendo que não recebeu qualquer comunicação formal da Prefeitura de Jacaraú sobre o caso. O órgão destacou que não houve julgamento técnico prévio e que, diante das informações disponíveis, a penalidade aplicada não se mostra razoável nem proporcional.

O Coren-PB também ressaltou que cabe à administração municipal apurar eventuais faltas administrativas, mas não declarar infração ética profissional, atribuição exclusiva dos Conselhos de Classe.

Defesa aponta vazamento indevido da imagem

A defesa das enfermeiras, representada pelo advogado Flauberthy Almeida, afirmou que as profissionais não realizaram a divulgação da imagem nem autorizaram sua circulação. Segundo ele, a fotografia foi registrada por outro servidor público, que teria solicitado o registro sob a alegação de que seria destinado a “arquivos internos”.

Ainda de acordo com a defesa, a imagem não expõe pacientes, não identifica vítimas e não interferiu no atendimento prestado. O vazamento posterior, segundo o advogado, ocorreu de forma indevida e sem consentimento, configurando possível violação de direitos de imagem, honra e dignidade profissional.

A defesa sustenta que as enfermeiras foram expostas, julgadas e punidas publicamente antes de qualquer apuração formal, o que caracteriza punição sumária e afronta direta aos princípios do Estado Democrático de Direito.

Responsabilização institucional e direitos fundamentais

Especialistas ouvidos sobre casos semelhantes destacam que nenhuma gestão pública pode se sobrepor às garantias legais dos servidores, ainda que diante de forte pressão social. A exposição pública de profissionais antes de investigação formal pode configurar abuso de autoridade, assédio institucional e violação de direitos fundamentais.

Outro ponto sensível é a responsabilização pelo vazamento da imagem. A defesa informou que medidas judiciais já estão sendo adotadas para apurar a autoria da divulgação indevida e responsabilizar civilmente os envolvidos pelos danos morais e profissionais causados.

Nota de esclarecimento e posicionamento das profissionais

Em nota de esclarecimento, a defesa reiterou que as enfermeiras estavam em pleno exercício de suas funções, prestando atendimento em uma ocorrência grave, e que em nenhum momento houve desrespeito às vítimas, exposição de pacientes ou prejuízo à assistência.

O documento reforça que a utilização da imagem fora de contexto, sem autorização e sem apuração prévia, resultou em acusações públicas precipitadas e punição desproporcional.

“A ética profissional não pode ser analisada fora do devido processo legal, nem substituída pelo tribunal das redes sociais”, afirma a nota.

Repercussão e próximos desdobramentos

O caso segue em apuração e deve avançar para a esfera judicial, tanto no que diz respeito à legalidade da demissão quanto à responsabilização pelo vazamento da imagem e pela exposição pública das profissionais.

O episódio reacende discussões recorrentes sobre a criminalização midiática de profissionais da saúde, especialmente da enfermagem, categoria que atua diariamente em cenários de alta complexidade, sofrimento humano e pressão emocional.

Mais do que respostas imediatas, especialistas reforçam que ética, justiça e responsabilidade institucional exigem investigação, legalidade e respeito, e não decisões tomadas sob o calor da comoção pública.

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