Apesar do avanço em novas tecnologias e da chegada de imunizantes ao Sistema Único de Saúde (SUS), o Brasil ainda está longe de erradicar a dengue. Segundo o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz e professor da UFMS, o país enfrentará altos índices da doença por, pelo menos, mais duas décadas.
Em entrevista exclusiva, o especialista destacou que, embora o cenário seja de esperança com as novas ferramentas de prevenção, o controle efetivo da epidemia é um processo de longo prazo.
Previsão para 2026: 1,8 milhão de casos prováveis
Dados da Fiocruz indicam um verão desafiador. A estimativa é de que o Brasil registre cerca de 1,8 milhão de casos prováveis de dengue em 2026. Se a previsão se confirmar, este será o quinto ano consecutivo com mais de 1 milhão de diagnósticos no país.
As regiões que devem concentrar o maior volume de notificações incluem:
- Sudeste: Especialmente São Paulo e Minas Gerais.
- Sul: Santa Catarina.
- Centro-Oeste: Distrito Federal e Mato Grosso do Sul.
- Norte: Tocantins.
Por que o Brasil não consegue vencer o mosquito?
Vários fatores explicam a persistência da dengue como uma ameaça de saúde pública. De acordo com Croda, as mudanças climáticas são um dos principais motores: o aumento da temperatura global e da umidade acelera a reprodução do Aedes aegypti e permite que ele alcance áreas onde antes não circulava.
O perigo dos novos sorotipos
Outro ponto crítico é a baixa imunidade da população a variantes específicas. Após anos de predominância dos sorotipos 1 e 2, o sorotipo 3 voltou a circular com força no Sudeste e Centro-Oeste. Como o brasileiro ficou mais de uma década sem contato com essa variante, há uma massa de pessoas suscetíveis, o que favorece novos surtos explosivos.
Vacinas e Tecnologia: Onde estamos?
Atualmente, o Brasil conta com duas frentes de imunização, mas com desafios logísticos:
- Qdenga (Takeda): Focada no público infantojuvenil.
- Vacina do Butantan: Imunizante nacional que começa a ser aplicado este mês, focado no público adulto.
Apesar da eficácia, o número de doses ainda é limitado para gerar um impacto imediato na transmissão nacional. “Para chegar ao nível de controle que temos na febre amarela, precisaríamos vacinar entre 80% e 90% da população”, explica o infectologista.
O Método Wolbachia
Além das vacinas, o Brasil aposta na tecnologia da bactéria Wolbachia, que impede o vírus de se desenvolver dentro do mosquito. A soltura de insetos infectados com essa bactéria tem crescido em várias cidades, mas os resultados dependem dos ciclos naturais de reprodução e demoram a aparecer em larga escala.
Conclusão: O dever de casa continua
Para Julio Croda, o momento exige vigilância constante. Enquanto as novas tecnologias não atingem cobertura total, o combate aos criadouros domésticos — eliminar água parada e lixo — continua sendo a arma mais eficaz para evitar a sobrecarga do sistema de saúde.





