Essa síndrome é, atualmente, um dos mais intrigantes problemas de saúde materno-infantil

Síndrome Alcoólica Fetal

A Síndrome Alcoólica Fetal, é o transtorno mais grave dentro das desordens do espectro alcoólico fetal.

Mulheres grávidas que fazem uso de álcool durante a gravidez, podem dar à luz, bebês com desordens do espectro alcoólico fetal, termo em ingles que significa “fetal alcohol spectrum disorders – FASD”. FASD é um termo genérico para uma série de distúrbios desse gênero. Esses distúrbios podem ser leves ou graves e podem causar defeitos congênitos físicos e mentais. A Síndrome Alcoólica Fetal (SAF), é o transtorno mais grave, dentro das desordens do espectro alcoólico fetal, e constitui um complexo quadro clínico de manifestações diversas, provocado pelo mãe, ao consumir bebida alcoólica durante a gestação.

Os tipos de desordens do espectro alcoólico fetal incluem:

  • Síndrome Alcoólica Fetal (SAF)
  • Síndrome alcoólica fetal parcial
  • Defeitos congênitos relacionados ao álcool
  • Transtorno do neurodesenvolvimento relacionado ao álcool
  • Transtorno neurocomportamental associado à exposição pré-natal ao álcool

O que é a Síndrome Alcoólica Fetal (SAF)?

As mulheres que bebem álcool durante a gravidez, podem dar à luz ao bebê com distúrbios do espectro alcoólico fetal. Esse distúrbio pode ser, leve ou grave, e pode causar defeitos congênitos físicos e mentais.  Quando a criança nasce, com disturbios provocados pelo uso de álcool pela mãe, durante a gravidez, esses distúbios podem receber o nome de Síndrome Alcoólica Fetal (SAF).

A Síndrome Alcoólica Fetal (SAF), representa um verdadeiro desafio para os profissionais da área da saúde. Essa síndrome é, atualmente, um dos mais intrigantes problemas de saúde materno-infantil e uma das principais causas de déficit cognitivo-comportamental em crianças. Além de causa de má formação congênita, a SAF também representa séria questão de ordem socioeconômica e de educação. Essa condição clínica de significante prevalência no Brasil decorre do consumo de bebidas alcoólicas durante a gravidez, provocando severas alterações no desenvolvimento fetal, comprometendo diversos órgãos. As crianças afetadas geralmente nascem com baixo peso e baixa estatura (PIG) e microcefalia. As alterações faciais são caracterizadas por: microftalmia, retrognatismo e ausência do sulco nasolabial, configurando um facies peculiar, como pode ser visto na figura abaixo (LIMA, 2008).

O conhecimento acerca dos efeitos do álcool na gestação é considerado recente; acredita-se que os primeiros relatos surgiram em 1968 na França, onde pesquisadores descreveram graves efeitos adversos do álcool em 127 casos de filhos de mães alcoolistas. Após cinco anos, a terminologia “Síndrome Alcoólica Fetal” (SAF) foi proposta por Jones e Smith nos Estados Unidos, quando apresentaram um padrão de malformações em fetos de mães alcoolistas e critérios diagnósticos.

Quais são os sintomas da síndrome alcoólica fetal?

Pessoas com SAF podem ter problemas de visão, audição, memória, atenção e habilidades para aprender e se comunicar. Embora os defeitos variem de uma pessoa para outra, o dano geralmente é permanente.

Como a Síndrome Alcoólica Fetal abrange uma ampla gama de problemas, há muitos sintomas possíveis. A gravidade desses sintomas varia de, leve a grave, e pode incluir um ou mais dos das seguintes características:

  • uma cabeça pequena
  • uma crista lisa entre o lábio superior e o nariz
  • olhos pequenos e grandes
  • lábio superior muito fino ou outras características faciais anormais
  • abaixo da média de altura e peso
  • hiperatividade
  • falta de foco
  • má coordenação
  • atraso no desenvolvimento
  • problemas no pensamento
  • pensamento na fala
  • pensamento nos movimentos e habilidades sociais
  • julgamento pobre
  • problemas de visão
  • pensamento de audição
  • dificuldades de aprendizagem
  • deficiência intelectual
  • problemas cardíacos
  • defeitos ou anormalidades renais
  • membros ou dedos deformados
  • mudanças de humor

Como a síndrome alcoólica fetal é diagnosticada?

Quanto mais precoce o diagnóstico da SAF, melhor o resultado. Um exame físico do bebê pode mostrar um sopro cardíaco ou outros problemas cardíacos. À medida que o bebê amadurece, pode haver outros sinais que ajudam a confirmar o diagnóstico. Esses incluem:

  • taxa de crescimento lenta
  • características faciais anormais ou crescimento ósseo
  • problemas de audição e visão
  • aquisição de linguagem lenta
  • tamanho pequeno da cabeça
  • má coordenação
  • outros fatores determinados pelo médico, incluindo a história clinica do bebê e da mãe.

Para diagnosticar alguém com SAF, o médico primeiro deve determinar, se ele tem características faciais anormais, crescimento mais lento que o normal e problemas no sistema nervoso central. Esses problemas do sistema nervoso podem ser físicos ou comportamentais. Eles podem se apresentar como hiperatividade, falta de coordenação ou foco, ou dificuldades de aprendizagem. O histórico médico deve fazer parte e vai ajudar a revelar o caso, principalmente se for comprovado pela histórica clínnica que a mãe usou alcool durante a gravidez.

Relatório Global sobre Álcool e Saúde

A OMS divulgou no início de 2014, um Relatório Global sobre Álcool e Saúde, que traz informações sobre o consumo de álcool no mundo e avalia os avanços realizados nas políticas do álcool.

Este documento destaca a importância de conceder atenção especial na redução dos prejuízos do álcool a terceiros, ou seja, aos que indiretamente sofrem os prejuízos do álcool, dentre os quais o acometimento fetal e de neonatos pelo uso de álcool por gestantes.

Dados Epidemiológicos: incidência e prevalência

Estudos norte-americanos (STREISSGUTH et al., 2001) destacam alguns dados significativos dessa síndrome. A incidência da SAF corresponde a cerca de 2 a 3 casos por 1000 nascimentos vivos, em geral. Em determinadas comunidades, a incidência chega a 10/1000 nascimentos vivos (1%).

No Brasil, a falta de conhecimento, a subestimação e a subnotificação dessa condição clínica torna o cálculo da incidência bastante difícil. É importante ressaltar, entretanto, que o elevado padrão de consumo de bebidas alcoólicas em nosso país, entre jovens, principalmente mulheres, pode fazer com que a prevalência de SAF seja alta.

É sabido que o Brasil figura entre os maiores produtores mundiais de bebidas alcoólicas. De acordo com dados da indústria brasileira, somos o terceiro produtor mundial de cerveja – ultrapassando a Alemanha desde 2012 – com mais de 13 bilhões de litros/ano. Em relação aos destilados, ocupamos o primeiro lugar como maior produtor mundial, com cerca de 1,4 bilhão de litros/ano. Nesse sentido, tem-se observado um significativo aumento do consumo, sobretudo, pela população jovem. Com isso, verificou-se que muitas mulheres grávidas consomem bebidas alcoólicas sem o devido conhecimento da ação tóxica do álcool sobre o feto. Em pesquisas realizadas pelo grupo, constatou-se que 22% das gestantes relataram que consumiram álcool durante a gravidez (LIMA et al., 2008). Se levarmos em consideração que no Brasil há cerca de 3 milhões de mulheres grávidas (MS/Datasus, 2007), pode-se estimar que nasçam por ano 30 mil crianças com SAF leve, moderada ou grave, ou seja, trata-se de 80 casos por dia.

“Se beber, não engravide; se engravidar, não beba” (LIMA, 2008).

Mecanismo de ação do álcool sobre o feto

Após o consumo, o álcool entra na circulação em direção ao fígado, onde passa por um processo de oxidação e transforma-se em acetaldeído, substância com alta capacidade de difusão em tecidos e líquidos corporais.

Assim, no corpo da gestante, o álcool atravessa a placenta através do sangue materno, chegando ao líquido amniótico e feto. Após uma hora os níveis de etanol no líquido amniótico e no sangue fetal são equivalentes aos da gestante. Entretanto, o organismo do feto não encontra-se apto para metabolizar o álcool e assim, a concentração de álcool no seu sangue permanece elevada por mais tempo, sendo que a redução do nível alcoólico ocorre principalmente pelo retorno à circulação materna.

Vale ressaltar que todos os tipos de bebidas alcoólicas são igualmente prejudiciais (incluindo vinhos, cervejas e bebidas mistas) mesmo que consumidas em pequenas quantidades e em qualquer momento do período gestacional.

Prevenção

A síndrome alcoólica fetal, é atribuída ao consumo de álcool durante a gravidez pela mãe, por isso, a única forma de evitar a SAF é não fazer a ingestão de bebidas alcoólicas em três momentos:

  1. Ao planejar engravidar
  2. Após a relação sexual desprotegida
  3. Durante a gestação

Se você é uma mulher com problemas com a bebida que quer engravidar, ou está grávida, procure ajuda de um profissional de saúde. Se você bebe socialmente e quer engravidar, não beba. Lembre-se, os efeitos do álcool podem deixar uma marca durante as primeiras semanas de gravidez e na vida inteira do seu bebê.

Efeitos do uso de álcool na gestação

Os prejuízos causados pela exposição pré-natal ao álcool, estão relacionados a diversas partes do corpo e por diferentes processos, em vários locais que ainda estão em desenvolvimento no feto, como por exemplo:

  • Morte de uma série de tipos celulares. O que pode causar desenvolvimento anormal de diferentes partes do corpo do feto.
  • O álcool pode interromper o desenvolvimento normal de células. As células podem não ser totalmente desenvolvidas, principalmente as que são responsáveis por diferentes funções do cérebro.
  • Constrição dos vasos placentarios. Isso irá dificultar o fornecimento de nutrientes e de oxigênio para o feto, e prejudicar, o seu desenvolvimento natural.
  • Subprodutos tóxicos do metabolismo do álcool. Essas substâncias podem permanecer concentrados no cérebro e contribuir para o desenvolvimento da SAF.

Podemos perceber com estes exemplos citados, que a exposição pré-natal ao álcool, pode causar danos cerebrais permanentes no bebê, uma vez que o cérebro do feto, está em pleno desenvolvimento durante a gravidez. Exames como a ressonância magnética, podem revelar que alguns indivíduos expostos ao álcool no período intrauterino, apresentam o tamanho do cérebro reduzido; há também a possibilidade, de que algumas partes do cérebro, sejam danificadas ou ausentes como os gânglios basais, o cerebelo, o corpo caloso e outras estruturas.

Quadro clínico

As mães devem procurar o médico, quando ocorrer uso de álcool durante a gestação, para favorecer a identificação da síndrome. Mesmo que tardiamente, a definição do quadro é útil para orientação de familiares e cuidadores. Não existe cura para esta síndrome, mas há intervenções propostas para crianças e para a família capazes de minimizar os danos causados.

Quais são os tratamentos para a síndrome alcoólica fetal?

Embora a SAF seja incurável, existem tratamentos para alguns sintomas. Quanto mais cedo o diagnóstico, mais progresso pode ser feito. Dependendo dos sintomas que uma criança com SAF apresenta, ela pode precisar de muitas consultas médicas ou especializadas. A educação especial e os serviços sociais podem ajudar crianças muito pequenas. Por exemplo, fonoaudiólogos podem trabalhar com crianças pequenas para ajudá-las a aprender a falar.

Em casa
Crianças com SAF se beneficiarão de um lar estável e amoroso. Eles podem ser ainda mais sensíveis a interrupções na rotina do que uma criança média. Crianças com SAF são especialmente propensas a desenvolver problemas com violência e abuso de substâncias mais tarde na vida se forem expostas à violência ou abuso em casa. Essas crianças se dão bem com uma rotina regular, regras simples a serem seguidas e recompensas por comportamento positivo.

Medicamentos
Não existem medicamentos que tratam especificamente a SAF. No entanto, vários medicamentos podem abordar os sintomas e melhorar a saúde. Esses medicamentos incluem:

  • antidepressivos para tratar problemas com tristeza e negatividade
  • estimulantes para tratar a falta de foco, hiperatividade e outros problemas comportamentais
  • neurolépticos para tratar ansiedade e agressividade
  • medicamentos ansiolíticos para tratar a ansiedade

Aconselhamento
O treinamento comportamental também pode ajudar na saúde. Por exemplo, o treinamento de amizade ensina às crianças habilidades sociais para interagir com seus colegas. O treinamento de funções executivas pode melhorar habilidades como autocontrole, raciocínio e compreensão de causa e efeito. Crianças com SAF também podem precisar de ajuda acadêmica. Por exemplo, um tutor de matemática pode ajudar uma criança que tem dificuldades na escola.

Pais e irmãos também podem precisar de ajuda para lidar com os desafios que essa condição pode causar. Essa ajuda pode vir por meio de terapia de conversa ou grupos de apoio. Os pais também podem receber treinamento parental adaptado às necessidades de seus filhos. O treinamento dos pais ensina você a melhor interagir e cuidar de seu filho.

Tratamentos alternativos
Alguns pais e seus filhos procuram tratamentos de saúde alternativos fora do estabelecimento médico. Isso inclui práticas de cura, como massagem e acupuntura. Tratamentos alternativos também incluem técnicas de movimento, como exercícios ou ioga.

Atuação do Enfermeiro na consulta de Enfermagem

É de extrema importância que o enfermeiro, considerando sua autonomia nas consultas de planejamento reprodutivo e pré-natal-direcione seu olhar para a manifestação dessa síndrome, visando a redução de danos e agravos ao feto em desenvolvimento ou possíveis complicações durante o período gestacional. Como estratégias exitosas que o profissional enfermeiro pode lançar mão, a literatura menciona a criação de rodas de convivências, palestras de orientação a gestantes que consomem álcool e ou cartilhas informativas, a fim de contribuir de forma técnico-científico para essas mulheres. Como parte essencial da atenção primária à saúde o enfermeiro deve capacitar a equipe envolvida no cuidado sobre a temática, bem como, identificação precoce e direcionamento dos casos de modo interdisciplinar. O enfermeiro assume então um papel importante no diagnóstico desta incidência, porém não existe a obrigação de notificação ao Ministério da Saúde deste consumo.

Referências

BARR, H. M.; STREISSGUTH, P. Identifying maternal self-reported alcohol use associated with fetal alcohol spectrum disorders. Alcohol Clin. Exp. Res., v. 25, n. 2, 2001.

BRASIL. Ministério da Saúde/Datasus, 2007.

LIMA, J. M. B. Álcool e gravidez. Síndrome Alcoólica Fetal (SAF). Rio de Janeiro: MedBook, 2008.

LIMA, J. M. B.  et al. Síndrome alcoólica fetal: entidade neurológica comum, porém pouco conhecida. Revista Brasileira de Neurologia, v. 42, n. 3, 2006.

STREISSGUTH, P. et al. A 21-year longitudinal analysis of the effects of prenatal alcohol exposure on young adult drinking. Arch. Gen. Psychiatry, v. 60, 2003.

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